quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O inferno de Marx

Texto para teatro de Vinícius Santos e Felipe Baierle


Marx e Engels, sentados em um boteco no inferno, conversam sobre os rumos da esquerda e sua revolução socialista. Dessa conversa, revolucionários extraíram as falas que se seguem em forma de minuta circular a quem possa interessar.

(Marx) – Vamos fazer uma conferência os quatro.

(Engels) – Suruba é o que tu quer, Marx, não conferência.

(Marx) – Vai convidando mulher, só não dá pra transformar a conferência em sagu, só bola. Com mais mulheres, certamente a conferência vai decair muito intelectualmente, mas vai subir afrodisiacamente, e o intelectual precisa de pulsão afrodisíaca, ou seja, as mulheres emburrecem o cenário, mas nos impulsionam, e nós ficamos mais intelectuais e compensamos, aí temos um giro de capital intelectual e afrodisíaco onde um faz o outro crescer, se potencializar, daí podemos teorizar, ampliar os níveis de rigor crítico, e comer elas com excelência acadêmica.

(Engels) – Não acho que os homens sejam mais inteligentes que as mulheres, mas concordo com a parte afrodisíaca, que com certeza, ao contrário do que tu disse, nos emburreceria.

(Marx) – Não, Engels, eu acho que o afrodisíaco deixa mais inteligente, o homem tem que se superar pra comer, isso ajuda o intelecto.

(Engels) – Tu é um louco.

(Marx) – Bem, não acho que as mulheres são mais burras, isso in natura, mas in concretum, acredito que se tu pegar as dez pessoas mais inteligentes que conhece, as mulheres serão minoria, ou não?

(Engels) – É que existem vários tipos de inteligência.

(Marx) – Creio que isso seja culpa da cultura, na Argentina, as pessoas mais destacadas na filosofia são mulheres, mas aí, curso com muita mulher é sempre de baixo nível intelectual, a filosofia nem tem mulher, entendeu? Digo capacidade de ter conceitos claros e trabalhá-los, pois penso que o resto pode ser malandragem, dissimulação, só que isso é uma inteligência inferior, pois ser malandro é coisa do burguês, do machista, então a inteligência mais pura é a da clareza de ideias e definições, e penso que no Brasil há a cultura de a mulher nunca saber bem certo o que quer, e o pior, elas gostam, aí é dissimulação, se pra elas isso pode ser visto como um tipo de saber bom, a sacanagem do capitalista também é um saber bom, ele dissimula.

(Engels) – Eu discordo. Acho que existe uma inteligência específica pra tudo que se faça. O caso é que está puxando a brasa pro teu assado: a razão.

(Marx) – Concordo. Quero dizer num contexto de debater hábitos e costumes, ou julgar questões, aí é preciso razão e clareza de ideias, franqueza no discurso.

(Engels) – Realmente, nesse campo há mais homens.

(Marx) (Engels) – É que eu me referia a fazer uma conferência, por isso acho que naquele contexto tem um fundo de verdade.

(Engels) – Na nossa conferência talvez não. Eu tava pensando em chamar a Rosa Luxemburgo, mais a Simone de Bouvois, Frida Kahlo, Luciana Genro. Iríamos tomar uma tunda.

(Marx) – A isso que me refiro. As próprias feministas só parecem inteligentes, a maioria faz uma leitura muito forçada da realidade, vendo maldade em tudo, e achando que todo homem que contra-argumenta é machista. Se não concorda é machista. Nisso já vejo falhas, ou burrice, ou má intenção, o que também é burrice se realmente tu quer melhorar o mundo, sabe?

(Engels) – Entendo.

(Marx) – Vejo na esquerda em geral algo que me incomoda. É muita incoerência. Os de direita são pau no cu. Eles podem ser incoerentes, mas no nosso caso, temos que ter rigor no discurso, não dá pra ser sem critérios, e a esquerda mais pós-moderna tem um discurso do tipo: “critério é não ser conservador, tem que falar qualquer merda que vem na boca, se é a favor, vale. Isso não gosto.

(Engels) – Ahm, faz sentido!

(Marx) – Tem coisa verdadeira e mentirosa, temos que parar de nivelar tudo e achar que verdade é só o que convém, senão damos tiro no próprio pé. Exemplo: “Dilma é a prova de que mulher tem que governar”. Se o governo Dilma for bom é por que é mulher. Muitas feministas dizem isso. Agora, se for ruim, não dá pra dizer, entende Engels? A mesma mulher que diz, “o governo Dilma é bom por que ela é mulher”, se o governo é ruim, não atribui a condição de mulher, isso é incoerência. Ou o fato de ela ser mulher não vale nem pro bem nem pro mal. Isso é lógica. São muito gritantes essas incoerências. Outro exemplo. Sai uma estatística: “Os homens traem mais”. A esquerda sai botando em tudo que é jornal que homem é tudo safado. Aí sai outra estatística: “setenta por cento dos casos de pedofilia envolvem homossexuais”. Ou seja, homem com gurizinho. Aí não vale, é homofobia. Então tem que dizer que a estatística não vale, senão tu é homofóbico, ora! Pra denunciar machismo ou homofobia, qualquer informação sem procedência vira verdade absoluta; se é pra mostrar que bizarrice não é só coisa de branco, hétero ou homem, que tá em todo lugar, aí tu sempre é machista, racista...

(Engels) – Vai ser boa essa nossa discussão, mas sinto que não comeremos ninguém.

(Marx) – Resumindo, todo o mal do mundo é ser branco, hétero e homem. Que diferença entre isso e dizer que todo o mal é ser gay, preto e mulher? Nenhuma! Pois não tem argumento bom, é tudo forçação de barra, sabe Engels? Me parece que a maioria das mulheres só quer forçar a barra.

(Engels) – Caro Marx, aconteceu alguma coisa ou esses argumentos foram acumulados durante anos num sentimento de "estou sendo sacaneado"?

(Marx) – Acontece que se procurarmos pessoas com um mínimo de coerência, serão poucos, e os homens serão maioria, ao menos na nossa realidade infernal. Mas eu só estou tentando complementar a história da conferência. Se fossemos eu e tu, poderia sair até um texto bom, mas com as mulheres, provavelmente isso se dificultaria. Então o jeito é comer. Juro que não faço essas reflexões na conferência.

(Engels) – Seria a demonstração de outro tipo de inteligência, mais emocional, mas não menos importante.

(Marx) – Mas essa inteligência emocional não permite avançar debates que possibilitem mudar hábitos nocivos, é muito mais algo que se defende para poder seguir na mesma, e dar nomes novos para certas dissimulações. Ou seja, melhor comer.

(Engels) – Nananã. A inteligência emocional é perfeita pras micro-revoluções, nada melhor que ela.

(Marx) – Sim, mas conduzida como massa de manobra, elas nunca representam forças conscientes da transformação. Ou não?

(Engels) – A inteligência emocional pode sim ser usada conscientemente pra realizar um projeto socialista. E posso te dar vários exemplos pessoais. A Frida não me deu nesse finde, e eu teci algumas teorias para entender o motivo.

(Marx) – Cadê a revolução?

(Engels) – Micro-revolução, micro! Ela tá acostuma a relacionamentos burgueses e nem sabe como agir por que eu fui claro e disse que quero ser amigo dela, e pra mim tudo bem se ela ficar com outros caras, a gente pode transar, ou não, sei lá. E mesmo assim, fiz ela entender, ou tentei, que se ela ficar com outros caras não significa que ela é uma puta, ou sodomita, enfim. É uma proposta de mudança comportamental que vai colocar ela no mesmo patamar meu, de homem. Uma proposta de repensar as relações que ela teve durante toda a vida. Basicamente é isso, pra falar de machismo.

(Marx) – Mas a tua conclusão tá bem mais próxima de uma inteligência estritamente racional do que emocional!

(Engels) – Só que ela foi colocada em prática afetivamente, e não por argumentos.

(Marx) – Tem que argumentar muito pra se chegar à conclusão de que amizade com sexo é a forma de relação que eleva ela ao nível de homem, ou que é a melhor, pois na emoção cega sempre haverá uma questão mais possessiva; é natural.

(Engels) – É preciso sair com a mulher e não beijá-la, mas abraços ternos pode, isso demonstra que existe carinho independente de sexo, e que o não sexo de hoje não significa não sexo amanhã.

(Marx) – Sim, o que digo é que só na emoção tu não tecerias tais compreensões, e que o agente do processo foi racional, a emoção só foi meio, instrumento.

(Engels) – As coisas devem andar juntas. Só nos argumentos também não chegaríamos a lugar nenhum.

(Marx) – Quando alguém é só emotivo, é mero instrumento, ou seja, é intelectualmente inferior.

(Engels) (Marx) – Naão! O sentimento é outro tipo de inteligência mais profunda e ao mesmo tempo reveladora.

(Marx) – Se tu soube usar, já o fez baseado em raciocínio. Olha, Engels, tu pensou racionalmente, depois percebeu: “mas assim nessa fórmula ela não entenderá”. Aí de novo pensou racionalmente e teceu estratégias emocionais para ensinar algo totalmente racional. E ela só entendeu com uma pedagogia apropriada por que não tava preparada pro argumento cru, como uma criança ou animal adestrado.

(Engels) – Pensei numa coisa. Cheguei à conclusão, me corrija se estiver errado, de que nascemos rasos e sinceros. A criança, dizem, externa com mais sinceridade seus desejos, intenções e pensamentos. Ainda não aprendeu a omitir essas coisas. Só que isso não faz da criança melhor que o adulto. E tampouco a criança ser um gênio a faria melhor que um adulto, por quê? Por que a criança é rasa de espírito. Demora-se anos para sofrer e gozar a vida, somente com o tempo o espírito vai ganhando profundidade pra sentir o significado misterioso de certas coisas. É preciso sofrer pra compreender a tristeza alheia, por exemplo. E a empatia talvez seja a maior de todas as inteligências emocionais, porque permite que tu se coloque no lugar do outro e passe por experiências sem ter necessariamente vivido elas. Ler um livro é um ótimo exemplo disso. Essa inteligência, a que aprofunda o espírito humano, está em contraposição à burrice de ser raso, fútil, superficial, ou mesmo de enxergar somente a matemática das coisas, a simples, nua e crua razão.

(Marx) – Mas tudo isso que tu coloca já é razão total. Eu concordo! Só que a emoção é instrumento, não se impõe, a razão sim.

(Engels) – A razão pela razão leva à lógica animal, a mais irracional de todas.

(Marx) – Eu posso ser ultra-racional e não saber emocionar uma mulher, mas aí não significa que falta emoção, falta razão para instrumentalizar a emoção, a razão é que falha nesse caso.

(Engels) – Se tu pensar que é só razão tu te coloca numa situação de transformar o outro com a tua razão, esquece que é transformado ao mesmo tempo num processo dialético.

(Marx) – Mesmo o cara que consegue emocionar a mulher, mesmo não sendo culto, está sendo levado por uma lógica, talvez ele precise se lançar as emoções para perceber esta lógica, mas há uma lógica, e se ele dominar, vai sempre levar vantagem, se não dominar vai ter de depender da sorte. Eu sou transformado por outra razão, pode ser inconsciente, mas é razão. Há motivos claros para alguém fazer algo que pode ser até auto-prejudicial, a pessoa pode estar agindo irracionalmente, mas dá para explicar a atitude irracional da pessoa de forma racional.

(Engels) – Proponho um teste, velho teimoso. Eu pergunto e tu responde curta e objetivamente.

(Marx) – Vai.

(Engels) – Se tu tivesse muito capital, teria muita liberdade, de ir, vir, comprar, fazer o que fosse. Liberdade é uma coisa boa, correto?

(Marx) – Pode ser. Quanto mais se poder fazer, melhor.

(Engels) – Ótimo. Se tu fosse lindo, forte, dançasse como ninguém, e por isso tivesse muitas fêmeas a teus pés, isso seria bom, não seria?

(Marx) – Seja com grana, com o pau, com a palavra, com a beleza, com a malandragem, com a inteligência, tudo amplia possibilidades, facilita a vida. Então é melhor.

(Engels) – Prossigamos. Existe a possibilidade de tu passar a vida inteira militando e jamais ver uma evolução decente da sociedade, quanto mais uma revolução. E tem a possibilidade de tu se transformar num cara tão legal, por buscar essa revolução, que acabe isolado da sociedade que tenta empurrar pra frente. Pode acabar pobre, infeliz, sozinho, e bom demais pra qualquer mulher, isso seria ruim, não é mesmo?

(Marx) – Como alguém pobre vai ser bom pra qualquer mulher, só se for muiiito gostosão ou sei lá, mentir bem.

(Engels) – Quero dizer exageradamente bom, além da conta, de um jeito que afaste as mulheres, bonzinho.

(Marx) – Entendi. Prefiro não ser bom e despertar interesse nas mulheres. Prefiro ser machista e fingir ser burro, só não quero ser burro de verdade por que não ser burro me ajuda em algumas coisas, to bolando um novo manifesto aí; mas prefiro fingir ser burro pra pegar mulher, óbvio!

(Engels) – Perfeito! Logo, concluo racionalmente que se tu passar a vida procurando ganhar dinheiro, esculpir o corpo, descobrir como manipular as mulheres, se fingir de burro e parar de perder tempo com uma revolução que só te prejudica nesses objetivos estará muito mais perto da satisfação pessoal do que agora. Pergunto, pela última vez, por que tu não faz isso, ao invés de se preocupar com lunpens, mulheres imbecis e pobres burros?

(Marx) – Por que minha racionalidade não é individual, é histórica. Alguns se compreendem racionalmente como indivíduos, outros se compreendem racionalmente como pedaços de história.

(Engels) – Aposto que não é nisso que tu pensa quando vê uma injustiça.

(Marx) – Eu concluo, diferente de outros, que se eu comer todas as mulheres, mas meu filho for escravo, eu serei um velho frustrado. Agora, se muitas me derem fora, mas eu poder no mínimo legar a alguém algo melhor do que foi meu mundo, meu coração estará feliz. Agora tu ganhou a discussão por que eu usei a palavra coração.

(Engels) – “O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”.

(Marx) – Bah, Engels, não fala isso!

(Engels) – É a pura verdade. Foi o que Che disse.

(Marx) – Por isso digo, não fala véio. Quer me matar do coração?! Por que não conheço uma mulher que fale isso? Ou por que não viro puto? Vou me matar, não fala.

(Engels) – Deixe de bobagens homem, sabe muito bem que já estamos mortos.

(Marx) – Desculpe. É que se eu achar que todo mundo é idiota vai ser mais fácil suportar a vida, ou melhor, a morte.

(Engels) – Há muitos anos eu cheguei à conclusão de que se fosse rico, tivesse lindos filhos, também ricos, e minha vida fosse toda perfeita não seria nem um centímetro mais feliz que hoje. Por que ao passear na rua lá estaria um miserável, e pra eu ser pleno preciso que ele também possa ser pleno.

(Marx) – Isso mesmo, Engels. É isso mesmo, mas isso pode ser algo racional.

(Engels) – Não é racional, não faz o menor sentido, parece até uma doença. Imagine depender psicologicamente de outro pra ser feliz, é uma loucura. Dizem que só os idiotas são felizes, faz sentido. O homem raso de espírito é feliz com qualquer coisa, basta, como um animal, ter uma toca, fêmea, alimento, pronto, é feliz!

(Marx) – Se atirarmos tudo ao emocional, seguiremos iguais. Quando tu diz que ensinou alguém pela emoção, exprime: “adestrei”. Se a pessoa não consegue racionalizar o que tu quer mostrar, ela não tá melhor que um animal.

(Engels) – Concordo. Mas a pessoa consegue racionalizar. Só que o que tá motivando a mudança também é um sentimento.

(Marx) – Sim, claro.

(Engels) – E o maior filósofo de todos os tempos mudou o mundo baseado no amor, cristo foi foda.

(Marx) – O campo da compreensão tem que ser racional, quem só percebe emocionalmente tá no nível animal, é inferior.

(Engels) – No fim toda a razão está ligada à um impulso primordial, um desejo, um sentimento.

(Marx) – Quem não consegue trabalhar o emocional é um incompetente, mas a consciência de trabalhar o emocional já presume racionalidade, senão nada se trabalha, tudo vira pulsão. To indo pra zona.

(Engels) – Esqueceu que isso aqui não é um moranguinho? Não tem zona no inferno, só fogo.

(Marx) – Tá bem, vamos continuar conversando.

(Engels) – A mesma irracionalidade se dá em quem não consegue trabalhar o emocional. As crianças são só racional, e são um saco!

(Marx) – Capaz, as crianças são só emocional.

(Engels) – Quer mais animalismo que uma criança? Elas são só razão! A criança quer uma coisa, ela resolve que o caminho mais curto pra conseguir aquela coisa é externar. Não importa onde ou a que custo, a criança inclusive chora sem estar triste pra conseguir a coisa, é razão acima de tudo, nada mais importa, só a satisfação dela.

(Marx) – Algumas crianças querem entender tudo, apanham do pai, são uns ignorantes na vida adulta, uns podres. Outras querem ser racionais, os pais incentivam, mas na adolescência as mulheres avacalham. Alguns meninos são incentivados e comem algumas meninas na adolescência, mas cansam pela solidão de serem inteligentes. Esses são melhores que os inteligentes que tem vergonha dessa condição, mas não passam de inteligentes de gabinete. Por fim, outros são incentivados pelos pais, comem umas na adolescência, perdem outras, mas algo lhes faz ver que assim é melhor. Esses são inteligentes orgulhosos de sua inteligência que não se contentam com o gabinete, e querem mais e mais da vida, do mundo, da história. Esses são imprescindíveis, como disse Brecht outro dia. São aqueles que se mantêm mais tempo em busca de uma racionalidade, mesmo que ela seja uma utopia, pois o socialismo é o sistema mais racional. O capitalismo em si vence porque falta racionalidade. O cara que pensa que vai mais longe na busca da felicidade de forma individualista não é racional, é burro, ou não?

(Engels) – Não.

(Marx) – Há! Tô gambá!

(Engels) – O cara que vai em busca da felicidade individual é raso e racional.

(Marx) –Capaz!

(Engels) – O que vai em busca da felicidade coletiva é louco, mas necessário e apaixonado pela vida.

(Marx) – O individualista não é racional.

(Engels) – Por quê?

(Marx) – Ele é limitado no cálculo, pois não entende que é um ser social. Saber da própria socialidade é mais racional do que ignorá-la. Não temos ódio da desigualdade por pena do pobre, não é um sentimento - pena -, mas o saber racional que a paz está na igualdade. Isto é racional, querer viver em uma guerra de todos contra todos, onde sempre todos são inimigos e concorrentes, é irracional.

(Engels) – Ignorar a socialidade para atingir o objetivo fim, felicidade, é mais racional do que passar a vida tentando atingir um objetivo que pode te deixar infeliz.

(Marx) – Mas será que é mais racional pensar que a dor do outro não me dói? Pois isso me parece impossível, me parece que não se doer pela dor do outro é não ver a dor do outro.

(Engels) – Isso não é racionalismo. “Dor”, “outro”, são coisas que não têm nada a ver com a razão. Ou dói, ou não dói, não depende de argumentos.

(Marx) – Sim, te entendo Engels. Por isso que pro amor, dor, ódio, felicidade, pra isso tudo, os poetas sempre tem coisas mais consistentes a falar do que os filósofos.

(Engels) – Verdade.

(Marx) – To gambá. Por falar nisso, como é horrível ler Hegel borracho, não entendo nada. E no outro dia, são, leio de novo e vejo que é fácil. Deus é mau. Fez um mundo que é pura contradição. Deus odeia Aristóteles. Deus é pau no cú. Por que odiar o cara? Ele só quis ajudar! Tá certo que o Aristóteles era puto, mas não precisava zoar com o cara tanto! Deus é homofóbico! Se fosse um macho a interpretar a teoria da não-contradição, Deus faria um mundo melhor, mas olha o drama! Os putos tão sempre querendo falar do que não é da conta deles. Era pra um macho teorizar sobre a não-contradição. Mas o Aristóteles, vaidoso, putão, escreveu antes, invés de esperar um macho escrever. Aí Deus, homofóbico, disse: “concordo, mas não dou o braço a torcer!”. Pegou o mango, a espora e o lenço maragato e avacalhou o mundo só pra discordar do Aristóteles. Aí pergunto: quem é culpado pela contradição do mundo? Deus, que é homofóbico? Por que veado não pode reproduzir, nem lésbica, que véio puto esse Deus! Ou o culpado era Aristóteles, que ao invés de dar o cú no canto dele foi inventar de criar uma teoria pra ganhar notoriedade (todo veado é vaidoso) e irritou Deus?

(Engels) – É dureza, te falei, tá tudo errado. Com as mulheres, por exemplo, tem que ser cheio de cálculos: “hoje ligo, amanhã não”. Elas estão todas estragadas também.

(Marx) – Tu não acha machismo dizer que elas estão estragadas?

(Engels) – Não meu amigo. Eu acho que isso é entender que o machismo estragou elas, e a nós também. E que se formos príncipes-encantados-não-machistas vamos ficar tremendamente sós.

(Marx) – Por que o machismo? Por que não a incapacidade feminina de se impor? Por que não a feminilidade que empurra o macho para o extremo negro, pois não consegue sair daí? Por que o clichê do machismo? Se elas é que gostam de merda e eu quero dar-lhes o mel? Por que sou culpado por elas gostarem de merda se quero dar-lhes o mel? Quantos homens como nós sonharam fazer-lhes sentir o gosto do mel e morreram amargos e sós? Taí o Hemingway que não me deixa mentir. E quantas mulheres sonharam com o gosto do mel, será que existe alguma? Por que a culpa é nossa? Conheço vários homens tomando no cú por serem bons, mas não lembro de uma mulher capaz de valorizar isso...

(Engels) – A culpa não é nossa não, mas do machismo. Se tu for machista, as mulheres, que foram educadas para serem oprimidas desde sempre, vão cair aos teus pés. Penso que é mais forte que elas, é uma necessidade de estarem corneadas.

(Marx) – Mas por que nomear isso de machismo, como podemos provar que o homem convenceu a mulher a ser assim? Por que não dá pra nomear de feminismo, ou “desejo de ser corneada” das fêmeas? Eu tenho muitos amigos pau no cu, e me pergunto: nasceram pau no cu ou as mulheres lhes educaram assim?

(Engels) – O caso é que a mulher in natura é igual ao homem, a diferença está nas relações sociais de opressão. Pô Marx, até agora tu ainda não leu o meu “A origem da propriedade privada do estado e da família”? Tu é foda hein.

(Marx) – Desculpe, ainda não tive tempo. Mas veja bem, as mulheres que conheço que gostam de chifre foram educadas pela mãe...

(Engels) – Baah, interessante!

(Marx) – Enquanto o pai tava se emborrachando no boteco, a mãe ouvia a filha dizer: “adoro o Tolstoy, ele não é ciumento”. Aí a véia respondia: “se ele não te trai nem tem ciúme, não gosta de ti”. E aí? Às vezes tenho pena dos machos, até por que sou macho.

(Engels) – Nunca diga isso perto de uma feminista, ela te come vivo! Ou morto, tanto faz.

(Marx) – E num contexto de “Das Deciencias Humanas”, até fico com vergonha disso, pois parece uma doença ser macho, e eu não me sinto superior a mulheres e gays, mas também sinto orgulho de ser como sou. Por que tenho que me envergonhar de gostar de mulher? Acho que sofro castração de minha sexualidade quando dizem: “que feio, machista mau, chamou a Rosa Luxemburgo de gostosa”. Por que se é o que sinto, que mal há nisso? Esperei ela sair, só falei entre amigos pra não expor, por que tenho que sentir vergonha de achar a Rosa Luxemburgo gostosa?

(Engels) – É o que penso também. Aliás, é biológico sentir atração.

(Marx) – E por que o meu pente, que defende amizade colorida pois não quer ser dominada, sente ciúmes da Rosa? Eu me sinto castrado, e sou homem, branco e hétero, por que tenho de aceitar isso? Ultimamente tenho pensado: “Segue tudo igual. Os séculos XX e XXI são bem piores que os outros”. Hoje há o fenômeno da moda. Ser veado tá na moda, ser mulher também. E eu? Não tô na moda. Às vezes me sinto excluído. Os caras perguntam: “já beijou homem?”, eu respondo: ”não”. Me chamam de homofóbico, porra! Nada contra, só que gosto de mulher.

(Engels) – Isso é trovinha barata. Dia desses um me disse que só os comunistas de vanguarda experimentavam ficar com macho, prefiro ser retrógado a dar o cu.

(Marx) – Óbvio! Eu gosto de vinho, se me disserem: “revolucionário toma mijo”, abandono a luta na hora. Que merda, não agüento mais os sociólogos.

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