Capítulo 2
A paisagem escorreu borrada do outro lado do
para-brisa. Dora enxergou uma casinha solitária, algumas vacas, um boteco onde
bêbados provavelmente gargalhavam. No volante do velho Ford estava Ivo. Era um caminhoneiro
quieto, pelos seus cinqüenta anos, barba espinhenta, desses que fumam cigarros
baratos. Tinha a mão sobre a coxa de Dora, que continuava distraída com a
estrada.
– Onde vamos dormir esta noite? – ela quis saber.
Muitas horas adiante, plena madrugada, fizeram amor
na boléia outra vez. Estavam vivendo assim já havia várias semanas. Dora embarcou
como caroneira e gostou tanto das histórias de Ivo (quando ele resolvia falar)
que rapidamente assumiu o posto de sua primeira dama.
Ele não fazia perguntas, tampouco às respondia. Ainda
mais que Dora, ele era uma pessoa de ação, não de palavras. Certa noite, quando
bebiam cachaça no bar, bastou um breve comentário sobre as pernas dela para que
comprasse briga com três caminhoneiros. Dora o ajudou, sem o que agora ele
talvez fosse um cadáver, pois um dos homens puxou uma faca.
Ao invés de agradecer pela ajuda, como ela esperava,
Ivo se limitou a arrastar o corpo suado até o “bruto”, como chamava o caminhão.
Dora ficou irritada com a pouca importância que lhe era dedicada. Acordou-o
para reclamar, inclusive.
– Eu acabei de ter o corpo todo moído de porradas –
Ivo resmungou. – Cale a boca e durma.
O que sentiu ao ouvi-lo dizer isso não foi ruim,
senão ele realmente teria sido morto aquela
noite. Começou a entender como Ivo agia. Afinal, ele tinha demonstrado algum cuidado
por ela ao enfrentar os três homens – e isso era muito mais do que a maioria
das pessoas costumava fazer.
Dora pegou cada vez mais gosto pela liberdade que
sentia na estrada. Havia um país a ser desbravado e ela não pretendia recusar tal
desafio. Entregavam mil sacos de farinha em uma cidadezinha esquecida no
interior de Minas para logo depois cruzarem o país até o Acre com uma carga de
algodão. Comiam o que os bares baratos lhes ofereciam; bebiam bastante, sobretudo
cachaça; Partiam rumo a outro lugarejo do qual ninguém jamais ouvira falar;
estradas de chão afora, esticavam a rede em paradouros na Bahia; dormiam na
boléia no caminho para Santa Catarina.
– Desce do caminhão – Ivo disse uma manhã.
Dora tentou imaginar o que se passava. Como não conseguiu,
desceu. Ivo também. Ele olhou para o céu azul límpido, depois para a estrada.
Era uma longa e solitária rodovia de asfalto esburacado.
– Está bem – ele continuou. – Agora pode subir...
não, aí não. Vá do lado do motorista.
Um relâmpago de satisfação perpassou os olhos de
Dora, que afinal queria aprender a dirigir o bruto.
– Você dirige carro? – Ivo perguntou, no banco do
carona.
– Sim, mas é muito diferente...
– É a mesma coisa. Vou dormir algumas horas, tente não
nos matar.
Ele deitou-se no banco e em menos de dois minutos
começou a roncar. Devia mesmo estar cansado. Dora ligou o rádio e sintonizou em
uma estação que tocava Odair José. Aprendera a gostar desse tipo de música
ultimamente. Girou a chave fazendo o Ford roncar seu velho motor. Sabia dirigir
carros muito bem, caminhões talvez fossem como carros grandes. Relaxou um pouco
quando terminou de percorrer (a 40 km/h) o primeiro kilômetro. Aumentou o
volume do rádio e acelerou até 60, 80, 90... Estabilizou-o em 110, fazia as
curvas aos solavancos. Ivo acordou em uma das guinadas, viu o jeito maluco que
ela dirigia e não deu a mínima.
Pegar a direção do bruto acabou se tornando um vício.
Se antes gostava da liberdade só por estar na estrada, agora sabia que tal sentimento
só era pleno quando estava ao volante. Ivo não se incomodava. Muito pelo
contrário, aproveitava para encher a cara. Por vezes ficava de olhos muito
vermelhos por causa da bebida, nessas ocasiões conversava um pouco mais que de
costume.
– Faz trinta anos que dirijo este caminhão. Sei que
não sou muito de falar, mas queria que você soubesse que estou... bem, você
sabe.
Dora tirou a mão do volante e diminuiu o volume do
rádio.
– Não sei. Do que você está falando?
Ivo bebeu mais um gole de cachaça.
– Costumava ter uma vida solitária na estrada...
– E?
– É bom ter alguém para dividir a boléia.
Ela esticou o braço até a garrafa de Ivo e bebeu um
longo gole antes de devolvê-la.
– Tudo que sei é ser um bom caminhoneiro, e isto é o
que tenho feito desde os anos oitenta. Costumava gostar da vida na estrada. Sexo
barato, comida boa, meu próprio caminhão, liberdade. Acho que a liberdade é um
vício tão perigoso quanto a cachaça, ou ainda mais. Você experimenta um
pouquinho e na mesma hora fica dependente.
Os olhos de Ivo estavam perdidos na escuridão da
estrada. Dora lembrou a espécie de transe em que suas vítimas entravam quando
repassavam a vida.
– Ainda lembro do frio na barriga de quando peguei a
estrada sozinho pela primeira vez. Ao passar em alguma rodovia no meio do nada
me borrava pensando no que faria se um pneu furasse. Mas isso era parte da
diversão. O medo deixava tudo com cara de aventura. Na primeira viagem fui do Paraná
até o Rio Grande do Sul. Na segunda, do Rio Grande do Sul até a Bahia. Tempos
depois já tinha me acostumado a cruzar o Brasil de ponta a ponta.
A barba do caminhoneiro subitamente adquiriu um ar de
sabedoria que Dora jamais tinha lhe atribuído antes.
– Cheguei a ter uma boa quantia de dinheiro no banco.
E ainda deve estar lá, porque nunca consegui sair da estrada para gastar. Acabei
descobrindo, com o passar dos anos, que já não me sentia livre percorrendo o
país, estava viciado. E todo vício acaba sendo uma prisão. Me tornei cada vez
mais sozinho, me acostumei a ficar quieto por não ter com quem conversar. Até
que você apareceu, Dora. Sinto que sou capaz de largar meu vício desde que a
conheci. Só queria que você soubesse.
Com a cabeça escorada no vidro da porta, Ivo aos
poucos adormeceu. Dora dirigiu até um hotel na beira da estrada aonde o deixou
dormindo.
– Ela roubou meu caminhão.
Era só o que o dono do botequim ouvira de Ivo a noite
inteira.
– Essas coisas acontecem – disse, por hábito.
– Como assim, ‘essas coisas acontecem’? Quantos
malditos caminhões você já viu serem roubados por mulheres na carona?
– Só estava tentando ajudar.
– Se quer ajudar, sirva mais um – inclinou o copo
vazio.
Bebendo a noite inteira, Ivo se tornara amargo. Reclamava
o tempo inteiro sem conseguir tomar nenhuma decisão, parecia resignado a encher
a cara para sempre. Ainda não se acostumara com a ideia de ter perdido o caminhão.
Também, devia ter desconfiado, aquela história toda estava boa demais para ser
verdade.
– Escuta, você não tem nenhuma ideia de onde ela vai vender
a carga?
– Duvido muito que faça isso – Ivo disse. – Agora eu percebo:
ela é a porra de uma maluca. Aposto que está se divertindo com o bruto por aí.
Tomou o martelinho de um gole só. O dono do bar encheu-o
novamente.
– Vai rodar com meu caminhão até Deus sabe onde. É,
eu vi aquele olhar quando ela dirigia.
– Se você descobrir para quem ela vai vender a carga
talvez possa...
– Me responda uma coisa, idiota. Para quem você acha
que ela vai vender uma tonelada de minério de ferro? Não existe bandido que
compre uma coisa dessas. Esqueça.
– Então ela vai abandonar a coisa por aí.
– Ou vai fazer a entrega e ficar com o dinheiro.
Ivo esvaziou o copo como da última vez.
– Isso seria muita burrice. Ela deve ter imaginado
que você avisaria a polícia.
– Ah, a polícia! Eles nunca fazem merda nenhuma. E
depois, não gosto da polícia. Não, ela sabe que eu nunca faria isso. Deve estar
levando a carga até o ponto de entrega confiante de que eu não vou saber para aonde
foi. Mas ela vai se perder nas estradas sem placas, só um caminhoneiro
experiente sabe rodar naquela serra.
– Ah, decidiu ir atrás dela.
– É claro, animal. Como pensa que vou dormir sem
resolver isso? Por ela ter me abandonado eu nem ligo, mas roubar meu caminhão!
Ivo olhou seu copo vazio.
– Logo vou estar no encalço dela, mas antes... sirva outra
dose.
Sem Ivo, Dora demorou duas vezes mais para chegar ao
destino, mas pouco se importou. Uma vez que estacionou, recebeu pela entrega da
carga sem problemas e agora se ocupava em gastar o dinheiro.
Poderia ter comido no melhor restaurante da cidade. O
que fez, contudo, foi procurar um bom paradouro. Serviu-se como um típico
caminhoneiro: carne de panela pingando molho vermelho, purê de batatas, arroz,
feijão, aipim frito e farinha de mandioca. Tal qual os demais clientes, ela tinha
uma pequena montanha de comida erguida no prato.
Terminado o almoço, antes de deitar na boléia para
fazer a sesta, se deu conta da beleza do lugar em que estacionara. Estava bem
em frente a um profundo precipício apinhado de árvores. Era quase como se a
exuberância da cidadezinha serrana fosse um prêmio pelo seu trabalho. Claro,
ganhar dinheiro era ótimo, mas a verdadeira recompensa era a mata que forrava o
abismo de verde. Lembrou-se da pressa de Ivo, que nunca queria parar muito
tempo em lugar nenhum e sentiu-se bem por ter se livrado dele.
Tendo acordado no meio da tarde, levou o bolo de
dinheiro que ganhara e entregou-o para a cafetina local.
– Quero que feche as portas e coloque todas as
mulheres à minha disposição – exigiu.
O puteiro era uma espelunca caindo aos pedaços.
Olhando de fora, parecia uma cabana de madeira comum, embora fosse decorado com
muitas luzes coloridas. Dora se divertiu até de madrugada. O lugar
transformou-se em uma casa muito alegre. Havia muita bebida, sexo, e
gargalhadas – tinha esquecido como as prostitutas costumam ser bem-humoradas.
– Sua vadia suja.
Ivo estava lá.
Embriagada demais para fazer qualquer coisa, Dora
sentiu dedos grossos apertarem seu pescoço por um tempo antes que um segurança a
socorresse.
– Tire as mãos de mim, desgraçado. Essa cadela roubou
meu caminhão... ah, eu vou te pegar, vadia.
– Pode largar ele – Dora disse massageando o pescoço
dolorido. – É assunto meu.
– Mas... se eu fizer isso... ele vai te bater, não
vai?! – o segurança respondeu olhando para o caminhoneiro imobilizado.
– Estou dizendo. Pode largar.
Ivo foi pego de surpresa pela atitude de Dora. Mesmo
assim, tentou demonstrar mais determinação do que realmente sentia.
– Aquele macaco não vai te proteger para sempre. Quando
sairmos daqui eu vou te matar com as minhas próprias mãos.
Dora duvidava muito. Sabia exatamente como cuidar de
Ivo, de modo que isso não lhe causava grandes preocupações. Estava aborrecida apenas
com o alvoroço que ele fez assustando as meninas.
– Como você entrou aqui, meu bem?
– Quando disseram na cidade que o puteiro estava
fechado porque uma mulher queria todas as vadias só para ela tive certeza de
que seria você. Meti o pé na porta e pronto, lá estava a maldita ladra que
roubou meu caminhão.
Dora bebeu um pouco de café preto que uma das meninas
trouxera.
– Vamos sair logo daqui para conversar. Onde está o bruto?
– Se eu disser você é bem capaz de me matar na mesma
hora. Vamos, Ivo, beba alguma coisa, afinal, é você mesmo quem está pagando.
Ele ia começar a rosnar de novo quando Dora
levantou-se e foi até a copa. Voltou com uma garrafa de cachaça de alambique já
aberta. Nem se preocupou em pegar copos.
Sem ter muito o que fazer, Ivo bebeu. Entornou, nervoso,
um terço inteiro do líquido amarelado. Precisava descobrir o que Dora fizera do
bruto, só esperava que não o tivesse vendido ou qualquer coisa do tipo.
– Isso ainda vai acabar te matando – Dora disse.
– Cale essa boca. Desde quando deu para regular minha
cachaça? Ei, você – apontou uma das meninas – sente aqui... isso, no meu colo.
Ivo bebeu bastante, mas não o suficiente para ficar
inútil. Continuava determinado a vingar-se como pelo menos uma boa surra. Dora,
por sua vez, continuou no café preto até ficar sóbria. O dia já amanhecia
quando ela resolveu ir embora.
– Ei! Aonde vai sem mim? Não pense que esqueci das
contas que temos a acertar.
– Venha, vou mostrar onde deixei o bruto.
Ao sair do puteiro, Dora não importou-se com a chuva gelada
que penetrava em suas roupas. Pensou que sentiria falta do caminhão – e de Ivo
também. Por que o idiota teve de vir atrás dela? E por que lhe bateu? Agora
precisava vingar-se, seria contra seus princípios deixá-lo vivo.
Chegaram ao caminhão com alguma dificuldade. Dora
praticamente arrastou-o pela lama até a beira do precipício. O sol começava a
despontar por entre as nuvens do horizonte nublado e a chuva aumentara de
intensidade.
– Você está morrendo – disse a ele. – Eu te matei.
Ivo riu.
– Eu é quem vou te matar, piranha desgraçada.
– É mesmo? – Dora tirou um canivete do bolso e o
colocou na mão dele. – Pois então faça.
Ivo fez algumas tentativas débeis de perfurá-la, mas
não pôde nem ao menos segurar o canivete direito.
– O que você fez comigo?
– O veneno que coloquei na cachaça praticamente já
paralisou os seus braços. Logo, as pernas também vão ficar assim. Depois você
morrerá lentamente.
Ensopado, Ivo mirava os olhos de Dora e, por mais que
tentasse achar que aquilo era uma grande brincadeira, não via senão verdade no
que ouvira.
– Bem, pelo menos você está ao meu lado, velho amigo
– Ivo deu um tapinha débil no pára-choque do caminhão.
Segurando-o para que se mantivesse em pé, Dora disse
que lhe realizaria um último desejo.
– Me ajude a chegar ao volante.
À beira do precipício, Ivo sentia o caminhão tremer antes
da última partida. Dora tinha engatado a primeira marcha. Tudo que ele
precisava fazer era deixar o peso do pé cair sobre o acelerador.
– Adeus... – ela gritou.
Ivo passou longos momentos encarando a mulher que o
matara fixamente. Lá fora, com a água da chuva escorrendo no rosto, ela estava
mais linda do que nunca.