quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cão dos diabos

Fernanda sentiu o estômago queimar quando acordou sozinha em seu apartamento de solteira em Novo Hamburgo. Odiava aquela sensação tanto que quase prometeu parar de beber para sempre.

– Mas não hoje – pensou com um sorriso arteiro. Era sábado, e nos sábados a moça de 18 anos ficava sedenta por aventuras. Nem por isso se considerava anormal ou sádica. Para ela, era coisinha à toa chupar dois caras ao mesmo tempo. O problema era que na hora H, quando eles abriam a braguilha das calças, Fernanda ficava insegura e dava para trás.

Dispensou os dois pedindo desculpas na noite passada. Levou um tapão na cara pelo acinte. Se assustar com tão pouco era coisa que a menina não se permitira jamais. Simplesmente ergueu o queixo e saiu andando muito tesa no salto scarpin vermelho.

No banheiro do JK alugado, no centro da cidade, lembrava disso ao ensaboar o corpo no chuveiro. A água quente fezia os músculos das costas relaxarem um pouco, a moça fechou os olhos enquanto sentia o líquido correr livre até a curva da bunda.

Triiim!

– Essa merda de celular sempre toca na hora errada – reclamou enquanto atendia. – Espero que seja importante!

– Isso lá é jeito de falar com tua melhor amiga? – Sibeli rebateu aos gritos. – Tu pode até achar que é grande coisa quando trata que nem lixo os caras que chegam em ti, mas comigo a coisa é diferente, ouviu?

Fernanda percebeu que tinha pisado na bola, já estava se secando fora do box. Assentiu rapidamente a reclamação da amiga com um muxoxo.

– Olha Nanda – Sibeli abrandou o tom –, sei que tu quer provar ao mundo que é insaciável e sem pudor. Acho até legais algumas das tuas ideias, principalmente as que não envolvem coisas pontudas e sexo em lugares públicos. Só que se tu continuar desistindo no último instante um dia desses alguém ainda vai te pegar a força.

– Sei disso Dona Sibeli Certinha... é que fico com medo, sei lá o que acontece, alguma coisa me paralisa, eu quero ir adiante, juro, só que não consigo!

No sexto andar, andava de uma ponta a outra do pequeno JK procurando uma calcinha que sabia estar ali em algum lugar. Que droga, por que tinha de ser tão bagunceira.

– O Tiago e o Jeferson ficaram de cara contigo – gargalhava uma Sibeli, agora alegre. – Os dois metidos queriam te matar quando saíram do pub ontem.

Pelo menos isso, pensou Fernanda rindo também.

– O que tu fez para deixar eles…

– Nada de mais, olha Si, to tentando achar uma calcinha aqui no meio dessa bagunça, nos vemos à noite no Abbey, ok?!

Meio a contragosto a amiga cedeu. Uma das coisas que Fernanda mais gostava nela era o quanto a conhecia. Sibeli quase podia ler suas bruscas mudanças de humor, era ótimo ser tão compreendida.

– Ok, então sua chata – disse Sibeli. – Vai ter show tributo à Doors, com uma banda chamada Back Doors, e à Led Zepellin, parece que o nome do grupo é Sérappis. Nos encontramos lá.

Desligou o telefone satisfeita por ter achado a calcinha que melhor lhe caía. Ficava enfiada em sua bunda pequena e arrebitada. O branco intenso da pele contrastava lindamente com o escuro brilhoso da seda. Olhou-se uma última vez em frente ao velho espelho que mantinha próximo à cama. Apalpou os seios, preferia que fossem maiores, embora estivesse satisfeita com a boa consistência e formato que tinham. Adorava a tonalidade rosea das auréolas que emolduravam os bicos pequenos, às vezes deixava aparecer um pedacinho sob um decote mais ousado só para pirar os homens.


Às dez da noite fazia muitas horas que um rapaz maltrapilho ingeria conhaque barato no Rock n' Roll Bar. Freqüentado principalmente por punks de cabelos exóticos, moças com maquiagem gótica e pessoas alternativas, o boteco recebia bem gente como Tomás. O cara de 25 anos, apesar de bonito, tinha os cabelos pelo ombro e sem corte, vestia um abrigo xadrez puído que combinava excepcionalmente com seu aspecto geral de vagabundo. Sentado em um banco de madeira, mantinha uma mão nos cabelos castanhos e outra no copo. Aberto sobre o balcão a sua frente havia um livrinho carcomido.

– “O amor é um cão dos diabos” – resmungava a beira do choro. Estava na mesma página a noite toda. Parou nela e ficou sem conseguir ir adiante na leitura pela emoção de saber que o escritor tinha definido tão bem o que sentia.

Jeferson, um loiro alto e magro de trejeitos abruptos, veio de uma mesa de sinuca tentar consolar novamente o amigo.

– Chê! Homem de verdade não deve ficar chorando à toa por aí. Ela te deixou... paciência. Agora tu tem que aproveitar que ta solteiro pra cravar o punhal em todas as minas que aparecerem pela frente!

Tomás enxergava o mundo à sua própria maneira aquela noite. Assim, as únicas palavras que ecoaram em seus ouvidos foram justamente as piores.

– Ela me deixou Jeferson, tu sabe o que é isso? Eu amava aquela cadela! O punhal está nas minhas costas.

Parou repentinamente de falar e se pôs a folhear o livreto alucinadamente.

– Escuta isso, se é que pretende realmente me entender: “Ela é selvagem e dócil, minha deusa faz-me rir a risada do multilado que ainda precisa de amor…” – e riu entre soluços convulsivos, os olhos muito vermelhos.

Tiago, que antes jogava com Jeferson, viu a cena e também veio tentar socorrer o pobre amigo. Moreno e atarracado, nunca ficou mal por mulher nenhuma e mostrou de maneira direta sua opinião sobre o assunto.

– Ela te largou para ficar com aquele cara da faculdade Tomás, aquele do carro importado, né? Mulher é tudo assim, só querem saber de grana, status e o escambal.

– São. Todas. Umas. Putas.

– Putas, putas, putas, putas! – Tomás assentiu com raiva. Limpou o choro na manga da camisa sentindo-se um pouco melhor. – Essa noite eu vou me vingar de todas essas cadelas. Ai de quem cruzar o meu caminho!

O bar tocava músicas animadas e com o passar das horas Tomás parou de beber o foi melhorando. Jogou várias partidas de sinuca, onde errou muitas bolas feitas por taquear forte demais, como se as bolas fossem as culpadas de seus problemas. Numa dessas a bola sete caiu aos pés de uma loira que jogava com o namorado, um baixinho de boné vermelho da Ferrari. Tomás chegou a sentir o sangue esquentando suas veias quando a moça educadamente lhe devolveu a bola. Seja por raiva ou simples desprezo pelo sexo oposto, achava que não tinha nada a perder e resolveu fazer o que lhe desse na telha. Parecia justo cobrar algum prazer daquele mundo cruel.

– Me encontra no banheiro em cinco minutos – sussurrou ele ao receber a bola da moça. – Vou mostrar o que uma vadia que nem tu precisa de verdade.

Ela era alta, usava finas meias calças de desenhos geométricos e tinha o olhar da mulher que sabe que é gostosa. Tomás fincou os olhos nela, que para seu prazer estava estupefata. Isso se passou muito rápido, mas para ele foi um tempo enorme e de inenarrável prazer. Nem queria saber se ela ia contar para o namorado ou não, apenas seguiu até o banheiro sem dizer nada. Depois de tantos anos de dedicação à mulher que amava, conseguiu apenas ser trocado por um playboysinho. Agora tinha decidido ser outro homem, um cachorro louco, um Bukowski, um velho safado, já até podia sentir-se cafajeste.

No banheiro masculino do segundo andar pouca gente se atrevia a ir. Mesmo os mais corajosos preferiam um poste àquela patente imunda, ali, além de muito fedido, era pequeno e sujo, a descarga estava quebrada há muitos anos. Sem se preocupar se a loira ia aparecer ou não, Tomás ergueu a tampa do vaso com um chute e deixou sua bexiga liberar um pouco de conhaque retido desde o início da noite.

Toc, toc, toc.

– Tem alguém aí? – perguntou uma vozinha insegura.

– Mas que caralho, não consigo nem mijar em paz! Vocês mulheres pensam que podem estragar todos os melhores momentos da vida de um homem – respondeu aos berros.

– Foi tu quem me disse pra vir – irritou-se a moça do outro lado da porta. – E se mudou de ideia, eu vou embora antes que meu namorado…

Tomás interrompeu-a ao abrir a porta.

Estava bem à sua frente, uma mulher e tanto. Tinha pernas longas, vestia uma blusa azul clara, obviamente para combinar com os olhos, que eram da mesma cor, e uma minissaia colada na tremenda bunda desproporcional à cinturinha fina.

– Entra aqui e cala essa boca – disse Tomás, retomando o controle da situação.

– Nesse banheiro sujo, não. Ai que nojo, tá fedendo a cocô!

Antes que pudesse continuar reclamando foi puxada pelo braço. Tomás percebeu que ela nunca tinha feito aquilo antes. Estava algo hipnotizada pelo seu olhar injetado. Só podia ser isso, talvez tivesse descoberto a fórmula para conquistar as mulheres. Talvez fosse só... confiança.

Ignorando tudo que aprendera sobre beijos com sua ex-namorada, que sempre dizia que o importante era ser carinhoso, resolveu fazer as coisas a seu modo. Beijou violentamente os finos lábios da loira e impôs a presença de sua língua como uma cobra dando o bote. Depois de um longo tempo, terminou com uma mordida forte no lábio inferior que era um pouco mais carnudo.

– AI! SEU MALUCO! – surpreendeu-se ela – minha boca tá sangrando!

Atirou-se novamente aos braços de Tomás.

– Essa mulher está reagindo diretamente aos meus hormônios – Tomás ponderou meio bêbado.

Resolveu ir até o fim naquele jogo. Estava aloolizado, era corno, merecia aquele presente. Afastou a sedenta gata com ambas as mãos, pois não queria ser devorado, queria devorar. Percebeu que sua expressão agora passava uma inequívoca mensagem de tesão. Aquela mulher de olhos azuis arregalados, cujos enormes seios arfavam a meio palmo dele, nunca devia ter sido subjugada assim antes.

– Eu quero que tu chupe meu pau bem devagar e coloque ele todo dentro da boca.

– Mas aqui não tem espaço nem pra eu me abaixar – disse ela olhando ao redor do cubículo.

Sem dizer mais nada, Tomás fechou a tampa do vaso e subiu nele, abaixou a calça com naturalidade enquanto a loira o obedecia comandada por um simples sinal de dedo. Os olhos dela esperavam ansiosos para ver o que sairia de dentro daquela calça de moletom gasta.

Quando libertou o pau, Tomás observou-o brevemente. Estava muito duro, e apesar de não ser grande, possuía uma cabeça desproporcional que tinha dado alegrias a algumas mulheres.

– Chupa.

De pronto, a loira abriu bem a boca e obedeceu. Passou a língua freneticamente na parte de baixo do cabeção que tentava invadir sua garganta, mas não conseguia. Sentia seu tesão aumentar tanto que instintivamente ergueu a minissaia e passou a mão maliciosamente entre as pernas.

– Ainda está de saia por quê? Pode tirar. – Tomás ordenou.

Era dessas mulheres que até a penugem das coxas é dourada. Tirou a minissaia sem parar de saborear a verga que a fazia salivar. A mão acariciou uma única vez o clitóris sobre a calcinha branca de renda antes de Tomás baixar novo decreto:

– Parada, te proibo de se masturbar.

A moça olhou aflita para ele (sem ousar tirar o pau da boca), que continuava com rosto impassível. Ficou assim dominada por mais de meia hora, chupando e acariciando as bolas de Tomás. Em dado momento, empurrando com um pouco mais de força, ele conseguiu alojar todo o membro na boca da mulher e o cabeção finalmente adentrou sua garganta. Olhou com raiva para ela, que permanecia o tempo todo de olhos cravados nele, e simplesmente deixou fluir o jorro de porra direto para aquela garganta apertada. Ao terminar, Tomás observou que ela estava com as coxas úmidas de tanto tesão.

– Chegou a escorrer, né piranha? Me diz, o que tu quer agora? – perguntou irônico.

– Eu quero que tu me coma com força – disse aflita, as unhas cravadas nas pernas de Tomás.

– Como se pede?

– Por favor... me come – conseguiu dizer, vencendo a vergonha de falar essas coisas com um estranho.

– Tu é uma piranha mesmo. Traiu o namorado, assim como tantas fazem por aí... – saboreou as palavras com um brilho estranho no olhar. – Some da minha frente que eu já acabei o que vim fazer aqui.

Tomás vestiu novamente o abrigo e saiu do banheiro deixando sem ação a mulher que minutos antes lhe servira.


Do Rock n' Roll Bar, os três amigos seguiram para o Abbey Road, pub que ficava a poucos metros dali. Tomás era cada vez mais senhor de si, parou de beber e agora estava apenas no brilho. Jeferson e Tiago iam ao seu lado trançando as pernas. Era meia noite, e os efeitos do álcool finalmente os alcançaram.

Na entrada do pub deram os nomes há uma senhora de uns 50 anos. Do guichê, ela olhou mecanicamente Jeferson entrar apressado para arranjar uma mulher. Tiago o imitou e logo depois desapareceu da entrada do pub, Tomás ficou sozinho com a velha.

– Nome?

– Charles – disse ele, com convicção. – Charles Bukowski.

A velha ergueu o rosto aborrecida pela brincadeira, mas parou de repente ao dar com os olhos do rapaz. Estava de cabelo desalinhado e aquele olhar injetado por cima de uma barba de duas semanas.

– Haha! – riu meio sem graça – Bukowski, o poeta maldito, não é?! Certo querido, agora me dê o verdadeiro nome para colocar na comanda, vamos, chega de brincadeiras.

Tomás fez sinal para que ela se aproximasse, ao que a senhora ergueu-se da banqueta onde estava.

– Mais perto, vou lhe dizer meu verdadeiro nome.

Ao aproximar o rosto foi carinhosamente agarrada pelo pescoço, onde recebeu uma tremenda chupada logo abaixo da orelha esquerda. Arrepiada e lembrando que mais pessoas chegariam a qualquer momento, a cinquentona decidiu que não haveria mal nenhum em escrever Charles Bukowski na comanda de um rapaz tão simpático.

– Aproveite a noite... Bukowski – disse e enfiou delicadamente a comanda no bolso do abrigo xadrez de Tomás. – Hoje é por conta da casa.

Uma vez dentro, Tomás foi imediatamente sentar-se junto ao bar. A banda de tributo a Doors já estava preparando os instrumentos para tocar. Tomás tirou a comanda do bolso e então reparou que nela havia algo carimbado em vermelho, além de um recado em letra de mulher.

“Charles Bukowski.

ISENTO.

Se acaso as menininhas daqui o entediarem, me procure. Pergunte por Ketryn a algum funcionário e me chamarão.

Beijo.”

Ia jogar a comanda fora quando lembrou-se dos benefícios que lhe traria. Uma noite inteira bebendo de graça não seria nada mal. Para testar o presente, mostrou o carimbo ao garçom atrás do balcão (tendo o cuidado de dobrar o papel para ocultar o recado escrito à mão). Bebeu um gole da Bohemia Long Neck que o garçom lhe alcançou e deu uma boa olhada no lugar.

O Abbey, como o próprio nome sugere, era um bar pensado nos termos do que foi o Cavern Club da Inglaterra, reduto do rock que lançou os Beatles. Tinha três ambientes rústicos com comunicação entre si. No da entrada ficava o maior bar, um pequeno palco, espaço para muitas pessoas em pé e umas poucas mesas; No do corredor ao lado ficava a porta de saída e um balcão pequeno de mais ou menos um metro e meio onde outro garçom atendia; e no ambiente dos fundos estavam os banheiros e outro bar de tamanho médio em frente a duas portas de serviço.

– Aí que tu se escondeu, borracho – disse Jeferson, dando um belo tapão nas costas do amigo. Tomás ignorava o porquê, mas desde sempre Jeferson tinha o costume de se exprimir por tapas.

– Que mania de gente da grota – falou consigo.

– Hum... pessoal, sinto que hoje é meu dia de sorte – anunciou o garboso Tiago. – Com tantas mulheres aqui tenho que arranjar alguma pra esvaziar o saco!

Ali as pessoas eram de estilos bem diferentes das que freqüentavam o Rock Bar, a média de idade era um pouco maior. Tomás viu que as mulheres tinham entre 25 e 30 anos, conservavam um ar alternativo e estavam quase todas de salto, meia-calça, saia curta, decote e chapinha.

– Aqui só tem puta, pessoal – Tomás falou em alto e bom som fazendo com que três ou quatro mulheres virassem para olhá-lo. – Isso mesmo. Pu-tas, todas vocês.

Uma delas o xingou de bêbado e se afastou levando as demais.

– Assim tu vai espantar os quero-queros – ralhou Jeferson, tomado daquele vocabulário de Alegrete que às vezes lhe aflorava quando alcoolizado. – Ó, já vai começar o fandango, vê se abaixa as orelhas um pouco e presta atenção.


Às duas da manhã, quando Fernanda e Sibeli chegaram para assistir ao segundo e mais esperado show da noite, o da banda Sérappis em tributo à Led Zeppelin, o Abbey estava esturricado de gente. As mulheres se acotovelavam tentando conseguir um lugar melhor para ver o vocalista Kakum cantar em tons impossíveis.

– Me falaram que esse cara é um procriador nato – Sibeli fofocou no ouvido de Fernanda. – Dizem que ele tem 10 filhos e mais um encomendado prestes a nascer.

– Legal – ignorou Fernanda, que não estava nem aí para a música –, a banda é boa mesmo. Mas estou preocupada com uma coisa mais séria do que o Kakum Futebol Clube.

Sibeli fez cara de curiosa.

– Tu reparou que quando a gente entrou aqui e nas vezes que fomos no banheiro os caras não tiraram os olhos do meu decote? – Fernanda perguntou muito séria.

– Sim, e daí? Tu sabe que os homens são uns animais. E também pudera, do jeito que tu está vestida hoje…

Fernanda estava dentro de uma calça de couro preta reluzente, sua calcinha de seda na mesma cor desenhava um pequenino “v” na bundinha empinada. Usava um tipo de espartilho pelo menos dois números menor que seu tamanho. Os seios muito duros ameaçavam explodir para fora da roupa a qualquer momento. No rosto levemente maquiado, apenas o batom vermelho sangue se destacava.

– Nem todos – prosseguiu –, ta vendo os malas do Jeferson e Tiago que eu peguei noite passada? Perto deles tem um cara que nem tomou conhecimento da minha existência aqui.

Sibeli viu os três rapazes a uns bons cinco passos delas, bem em frente ao palco. Estavam perto, mas a quantidade de pessoas no caminho deixava o caminho difícil de percorrer.

– Ah não, Nanda. Tanto gato dando mole e tu vai encasquetar logo em pegar aquele pobretão mal vestido! E depois, deixa isso pra lá, ele está batendo cabeça ouvindo a banda, nem deve ter te visto.

De fato, naquele momento a Sérappis tocava Heart Breaker em uma performance que incendiou o público. Fernanda olhou o palco por um instante e achou que o guitarrista, um careca altão, com certeza estava louco do trago para tocar daquele jeito insano.

– É... tu deve ter razão – Fernanda acalmou-se um pouco. – Então é só chegarmos daquele lado e ele me dar uma boa olhada para cair de quatro.

Pegou a amiga pelo braço e foi ganhando terreno até o lado direito do palco, onde os três bebiam próximos a mesa de madeira.

– Olha quem apareceu Tiago, aquela china sefazol de ontem à noite – Jeferson falou alto para ser escutado pelas duas moças. – Nada contra ti Sibeli, mas essa tua amiga aí é mais traiçoeira que cobra caninã.

Tiago cutucou as costelas de Tomás com o cotovelo.

– Essa... é a puta... que falamos –Tiago disse enrolando a língua.

– Só mais uma vagabunda. Olha o jeito que ela está vestida – Tomás aumentou o tom de voz para ser ouvido pelas duas:

– É proibido fazer programa aqui dentro.

– O quê?! – fazendo-se de desentendida, Fernanda sentiu o rosto corando.

– Ué, vestida desse jeito só pode estar querendo ganhar uns trocados – Tomás pegou uma nota de dois reais e, ligeiro como um gato, colocou no decote de Fernanda. – Pelo menos pro ônibus tu já tem! Não vai precisar dar pro motorista.

Vendo a cena, os dois amigos se puseram a rir como loucos. Tomás estava incontrolável. Até mesmo Sibeli achou graça, às vezes o orgulho de Fernanda merecia uma lição. Mas Fernanda se considerava irresistível e não iria desistir tão fácil. Sabia que tinha armas para seduzir qualquer homem. Era só questão de tempo até aquele barbudo estar humilhado a seus pés.

Ficou por ali fingindo que nada acontecera. Olhou para o palco para evitar os quatro que ainda riam dela. Viu o baixista da banda tocar de olhos fechados acompanhando a difícil tablatura da música. O rock era ensurdecedor e muito bem tocado. O baterista tinha uma coleção de baquetas quebradas ao lado do pé esquerdo. Agora tocavam a música Rock n' Roll a todo vapor.

Fernanda limpou a mente e montou uma estratégia. Virou-se bruscamente, de costas para o palco, e de frente para os três rapazes, e falou ao Jeferson.

– Tu tem razão seu alemão plantador de batata – disse muito séria, a voz esganiçada para se fazer ouvir por todos. – Sou mesmo uma china e quero ver se tu é homem de verdade, vai ficar aí rindo, ou vai me beijar?

Jeferson também tinha seu orgulho e não se deixaria intimidar por mulher nenhuma. Aproximou-se pensando em comer viva aquela infame, quando ela o parou com a mão espalmada no peito.

– Espera. Quero os dois ou nada feito – disse olhando para Tiago.

Ambos os amigos se entreolharam estarrecidos. Fernanda percebeu que estava perdendo tempo e os agarrou. Ficaram em um sanduíche, Tiago encoxava-a por trás enquanto Jeferson sorvia sua saliva e apertava os peitinhos com força total. De olhos fechados, os três ficaram inebriados durante uns dez minutos. Quase se comeram em público aproveitando a hipnoze gerada pelo show da Sérappis.

Passado esse tempo, Fernanda achou que era hora de dar uma olhadela para o lado e ver a cara de inveja que o barbudo sacana certamente estaria fazendo. Se ele implorasse seu perdão, talvez lhe concedesse o prêmio de um boquete.

Contudo, para sua tremenda surpresa, quando abriu os olhos a imagem que viu era absurda! O rapaz, ao invés de dar-se por vencido, como deveria ser, estava no meio de um beijo triplo com uma velha cinquentona e... impossível! Sibeli! Logo ela que sempre fora tão comportada agora lutava para fazer a mão de Tomás entrar dentro de sua calça jeans apertada.

O que Fernanda sentiu a seguir foi inexprimível. Um misto de tesão e ódio profundo que a fez ter certeza de estar ovulando naquele mesmo instante. Beijou agressiva os dois rapazes com ainda mais afinco sem jamais tirar os olhos de Tomás, que também a olhava sem piscar.

Não queria ficar para trás, e então disse de sopetão à Tiago e Jeferson.

– Agora – anunciou ofegante – vamos dar um beijo triplo.

Tiago olhou apreensivo para Jeferson, que respondeu abrupto:

– Nem por um chinaredo inteiro vou roçar pelo com macho – virou as costas e foi para o bar procurar uma mulher menos problemática.

– Essas coisas de puto a gente não faz – disse Tiago, mas antes de sair estendeu-a um cartão. – Se numa dessas quiser uma convencional cobra com aranha, pode me ligar.

Furiosa, Fernanda estapeou o cartão de Tiago, que deu de ombros e também seguiu para o bar. Ela olhou novamente para Tomás. Ele estava com uma mão em cada mulher e ambas faziam cara de quem estava tendo um orgasmo deliciosíssimo. E estavam mesmo. Fizeram-lhe mais algumas carícias até que um funcionário veio alertar dona Ketryn de um problema nos cartões de crédito e ela teve de ir.

– Obrigada pelo carinho – agradeceu maliciosa. – Fazia tempo que não me divertia tanto.

Deu um último tapa na bunda do rapaz e saiu vaidosa acariciando os próprios cabelos em direção ao corredor paralelo da saída. Sibeli aproveitou a distração e saiu de fininho, estava super constrangida de ter deixado alguém lhe fazer gozar em meio à multidão.

– Até agora tento entender o que aconteceu, Nanda – tentou desculpar-se. – Foi tudo tão rápido, que homem!

Fernanda olhou Sibeli com desprezo antes de responder.

– Sua vaca, essa foi a pior traição de toda minha vida. Mas tudo bem – emendou tentando se acalmar –, estou disposta a te perdoar contanto que me ajude com uma coisa.

– Tu ta fazendo aquela cara de maluca de novo Nanda, to ficando com medo. Não é nada ilegal, é?

– Pode apostar que é.


Uma hora depois de tramar o novo plano, Fernanda começou a colocá-lo em prática. Como imaginava, depois do final do show, os três amigos praticamente só saíram de perto do bar para ir ao banheiro. Sibeli estava a postos no ambiente dos fundos e conversava com o garçom.

De longe, Fernanda observou pacientemente até que surgiu a oportunidade perfeita. Tiago foi ao banheiro e Jeferson estava ocupado cantando uma mulher perto de uma mesa mais afastada. Aproximou-se do balcão onde Tomás meio que dormia escorado nos próprios braços. Devia estar podre de bêbado.

– Outra vez tu me faz passar vergonha – ela xingou, se passando por namorada. – Desculpa alguma coisa viu moço, às vezes ele fica violento.

O garçom falou que não tinha problema, estava acostumado. Tomás entendeu as más intenções da mulher que o arrastava.

– Me solta... eu não quero... me solta – ele disse de língua enrolada.

– Nunca mais vou te deixar beber tanto, agora fica assim imprestável – ela reclamava de cara feia. – Quem vai dirigir se eu não tenho carteira?!

Aparentemente vencido, Tomás foi sendo levado pelo braço. Fernanda o arrastou até o bar dos fundos, que ficava em frente às duas portas de serviço. Uma era a da cozinha, outra a de um cubículo pequeno usado para guardar uns poucos móveis e caixas de cerveja. Sibeli viu a amiga chegando com Tomás pelo braço e entendeu que era hora. Agarrou os cabelos do garçom e lhe deu um beijo muito fogoso que durou tempo o bastante para Fernanda se esgueirar até a entrada da espécie de almoxarifado levando Tomás.

Estava feito. Uma vez lá, ligou a luz e chaveou a porta, o barulho da música lá fora garantiria que não fossem ouvidos.

– Agora tu é meu – começou ela – e ninguém vai atrapalhar.

– O que tu tá querendo de mim... já dei o dinheiro... para o ônibus... não dei? – Tomás respondeu débil, de cabeça meio baixa.

Fernanda o jogou sentado em uma cadeira de madeira que encontrou por ali.

– Fica quieto e relaxa, amorzinho.

Procurou na bagunça da saleta algo com que pudesse amarrá-lo. Na falta de algo melhor, atou seus mãos e pés na cadeira usando sacolinhas de supermercado. Ao terminar o trabalho, julgou que era mais do que suficiente. Ele mal oferecera resistência, e se estava acordado era por que de vez em quando Fernanda lhe dava uns tapinhas na cara.

– Se dormir vai perder a melhor parte do show – ela disse insinuante.

Fernanda estava de pé em frente ao prisioneiro, as pernas curvilíneas um pouco afastadas, mãos na cintura em pose de comando. Os seios, embora pequenos, apontavam para o rosto de Tomás, estavam em pleno vigor dos 18 anos.

– Tô fudido – disse ele.

Fernanda riu enquanto tirava um objeto pequeno do bolso, era um celular. Digitou alguma coisa. Tomás ouviu a o início de Trampled Under Foot, do Led.

O corpo de Fernanda devagar entrou no embalo da canção. Ela ondulava em frente a ele, a mão acariciava os próprios cabelos, que eram de um castanho brilhoso. De repente abriu os olhos e começou a cantar junto com a música.

– ¹Greasy slicked down body, groovy leather trim – entoou, e deu um tapa na própria bunda – I like the way you hold the road, it ain't no sin.

Escorou as mãos nos joelhos ficando com o rosto tão perto de Tomás que sentiu o calor de sua pele. De um único puxão, tirou a calça do rapaz, foi fácil, de tão gasta que estava nos elásticos.

Vendo a precariedade da situação e em uma tentativa desesperada de contra-atacar, o adepto de Bukowski cantou também:

– ²Trouble-free transmission, helps your oil's flow. Mama, let me pump your gas, mama, let me do it all!

Fernanda deixou escapar uma cara de surpresa pela resistência do refém, ainda assim, tomou fôlego e continuou.

– ³Dig that heavy metal underneath your hood, baby – Fernanda olhou para o volume sob a cueca do rapaz. – I could work all night, believe, I've got the perfect tools. A model built for comfort, really built with style – ela prosseguiu sem deixá-lo tempo para pensar. – Specialist tradition, baby, let me feast your eyes.

Percebendo que ele titubeava, Fernanda virou de costas, inclinou o corpo para frente e a bunda em direção ao rosto de Tomás. Sabia que assim o obrigava a ver a marca da pequena calcinha sob a brilhante calça de couro. Despiu-se delicada e lentamente nesta posição. O pobre expectador descobria enevoado cada novo centímetro de pele branca que lhe era revelado. Quando ela ficou apenas de espartilho e calcinha de seda, Tomás estremeceu.

– ¹Groovin' on the freeway, gauge is on the red – ele cantou, parecendo mais nervoso do que gostaria. – Gun down on my gasoline, I believe I'm gonna crack a head.

A cada instante Fernanda se descobria mais dona da situação. Calou Tomás usando o dedo indicador. De costas, sentou em seu colo e rebolou, a cabeça escorada no ombro forte do rapaz.

A primeira coisa que ele sentiu foi o suave perfume que ela tinha no pescoço. Depois, a maciez da pele dos braços, que lhe roçavam o rosto, e a consistência incrível da bunda. A única resistência que podia impor naquele momento era pensar em coisas broxantes.

– Avós fazendo sexo… Doce de laranja azeda… – de repente sua espinha gelou – Cadeeeeeiras.

De joelhos, aos seus pés, Fernanda havia lhe tirado a cueca e dava beijinhos rápidos por todo o corpo de seu pau. A manobra deixou-o a meio caminho da ereção, agora seria quase impossível refrear-se.

– Tu vai ser meu, para de resistir. Nós dois sabemos o quanto tu me quer – e passou a língua quente das bolas até o cabeção.

– Naaaão!

– Então, está certo – ergueu-se Fernanda.

– Se tu resistir a isso – tirou a calcinha e sentou em seu colo, deixando o pau meio murcho estrangulado entre as coxas – eu concordo em te soltar.

Muito nervoso, Tomás assistiu-a tirando o espartilho.

– Mas tenho uma condição – ela ressalvou antes de continuar. – Eu quero que tu participe.

Sem saída, o rapaz fez que sim com a cabeça e passou a chupar os seios de bicos firmes que lhe eram oferecidos. Cheia de tesão, a moça massageava-o com as coxas. Logo se beijaram, as línguas velozes percorriam todos os cantos da boca um do outro. Até as bolas de Tomás ficaram molhadas com o tesão daquela mulher impossível. Ele tentava transportar-se mentalmente para longe dali, mas seu pau parecia ter vida própria.

Ao perceber a vitória iminente, Fernanda ergueu-se um pouco sobre o colo de Tomás, que ficou com a verga apontando para o teto. Beijou-o feroz e desceu o quadril até aquela cabeça desproporcional ficar só um pedacinho dentro dela.

Se fosse possível, o rapaz afogueado teve certeza de que o pau cresceria alguns centímetros a mais só para entrar ali. Mas não era. E para sua tortura, ela lhe massageava as bolas com os dedos delicados parecendo o encorajar a invadi-la, embora ao mesmo tempo o impedisse.

Estava tão molhada que escorria de desejo pela pequena área de contato entre os corpos. A esta altura, ambos estavam lambuzados. Fernanda tirou a mão das bolas de Tomás, perscrutou-o e se convenceu que neste ponto ele não pararia nem se ela quisesse.

– Espero que seja homem o suficiente para admitir que perdeu – falou ao desamarrá-lo.

O rapaz ficou mudo. Limitou-se a dar como resposta um gostoso tapa na bunda de sua estupradora, que por sua vez sentou devagar no pau até ter o ânus colado ao seu saco.

– Huummmmmmmm... – gemeram ambos.

Estavam de tal forma excitados que bastou uma única penetração para atingirem juntos o orgasmo. Arfaram juntos de corpos colados por alguns momentos.

De súbito, Tomás levantou, vestiu a cueca e depois a calça. Ficou de pé sem dificuldades, qualquer um diria que jamais esteve bêbado. Dirigiu-se até a porta e, abrindo-a, fez uns gestos estranhos. Tiago e Jeferson entraram.

– Mas Chê, não é que tu conseguiu mesmo! – espantou-se Jeferson. – Pensamos que depois de tudo essa china fosse te odiar.

– Não disse para vocês, ta aí a prova – apontou para Fernanda ainda arfando, estava desgrenhada na cadeira com uma cara de ódio indizível.

Ela ficou em silêncio até os três saírem pela porta rindo alto. Manteve o orgulho e evitou as lágrimas, não era esse tipo de mulher. As provocações de Tomás tinham o único efeito de avivar-lhe a vontade de tê-lo como homem, ser sua dona.

Que boba... parece que havia se apaixonado.

***

Tradução adaptada dos versos de Trampled Uder Foot (Ajoelhado aos teus pés) usados neste conto.

1. Lubrificada de graxa por baixo, tapeçaria de couro na moda / Eu gosto quando você pega a estrada, baby, isto não é pecado.

2. Transmissão à prova de falhas, ajuda seu óleo fluir. Mamãe deixe-me bombar seu gás. Mamãe, deixe-me fazer tudo.

3. Me encanta esse metal pesado embaixo da sua capota, baby / Eu poderia trabalhar a noite toda, acredite, eu tenho a ferramenta perfeita. Um modelo feito para seu conforto, realmente feito com estilo. Tradição de especialistas, baby, deixe-me arregalar seus olhos.

1. Circulando na autoestrada, o ponteiro está no vermelho / Está acabando a minha gasolina, acho que estou caindo de cabeça.

* Clique aqui para ler a continuação de Cão dos Diabos

A história de Zarel

As agruras de Tamuz

"O rosto de Henri se paralisou ante ao espetáculo que avistava ao longe. Havia relâmpagos, redemoinhos e um imenso cobertor de escuridão agourenta avançando direto para aonde estavam. Mediu a pequena barraca com os olhos, não pareceu muito confiante quanto a estar seguro dentro dela; este couro velho vai mesmo agüentar aquilo?!"

(capítulos de um a 13)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O inferno de Marx

Texto para teatro de Vinícius Santos e Felipe Baierle


Marx e Engels, sentados em um boteco no inferno, conversam sobre os rumos da esquerda e sua revolução socialista. Dessa conversa, revolucionários extraíram as falas que se seguem em forma de minuta circular a quem possa interessar.

(Marx) – Vamos fazer uma conferência os quatro.

(Engels) – Suruba é o que tu quer, Marx, não conferência.

(Marx) – Vai convidando mulher, só não dá pra transformar a conferência em sagu, só bola. Com mais mulheres, certamente a conferência vai decair muito intelectualmente, mas vai subir afrodisiacamente, e o intelectual precisa de pulsão afrodisíaca, ou seja, as mulheres emburrecem o cenário, mas nos impulsionam, e nós ficamos mais intelectuais e compensamos, aí temos um giro de capital intelectual e afrodisíaco onde um faz o outro crescer, se potencializar, daí podemos teorizar, ampliar os níveis de rigor crítico, e comer elas com excelência acadêmica.

(Engels) – Não acho que os homens sejam mais inteligentes que as mulheres, mas concordo com a parte afrodisíaca, que com certeza, ao contrário do que tu disse, nos emburreceria.

(Marx) – Não, Engels, eu acho que o afrodisíaco deixa mais inteligente, o homem tem que se superar pra comer, isso ajuda o intelecto.

(Engels) – Tu é um louco.

(Marx) – Bem, não acho que as mulheres são mais burras, isso in natura, mas in concretum, acredito que se tu pegar as dez pessoas mais inteligentes que conhece, as mulheres serão minoria, ou não?

(Engels) – É que existem vários tipos de inteligência.

(Marx) – Creio que isso seja culpa da cultura, na Argentina, as pessoas mais destacadas na filosofia são mulheres, mas aí, curso com muita mulher é sempre de baixo nível intelectual, a filosofia nem tem mulher, entendeu? Digo capacidade de ter conceitos claros e trabalhá-los, pois penso que o resto pode ser malandragem, dissimulação, só que isso é uma inteligência inferior, pois ser malandro é coisa do burguês, do machista, então a inteligência mais pura é a da clareza de ideias e definições, e penso que no Brasil há a cultura de a mulher nunca saber bem certo o que quer, e o pior, elas gostam, aí é dissimulação, se pra elas isso pode ser visto como um tipo de saber bom, a sacanagem do capitalista também é um saber bom, ele dissimula.

(Engels) – Eu discordo. Acho que existe uma inteligência específica pra tudo que se faça. O caso é que está puxando a brasa pro teu assado: a razão.

(Marx) – Concordo. Quero dizer num contexto de debater hábitos e costumes, ou julgar questões, aí é preciso razão e clareza de ideias, franqueza no discurso.

(Engels) – Realmente, nesse campo há mais homens.

(Marx) (Engels) – É que eu me referia a fazer uma conferência, por isso acho que naquele contexto tem um fundo de verdade.

(Engels) – Na nossa conferência talvez não. Eu tava pensando em chamar a Rosa Luxemburgo, mais a Simone de Bouvois, Frida Kahlo, Luciana Genro. Iríamos tomar uma tunda.

(Marx) – A isso que me refiro. As próprias feministas só parecem inteligentes, a maioria faz uma leitura muito forçada da realidade, vendo maldade em tudo, e achando que todo homem que contra-argumenta é machista. Se não concorda é machista. Nisso já vejo falhas, ou burrice, ou má intenção, o que também é burrice se realmente tu quer melhorar o mundo, sabe?

(Engels) – Entendo.

(Marx) – Vejo na esquerda em geral algo que me incomoda. É muita incoerência. Os de direita são pau no cu. Eles podem ser incoerentes, mas no nosso caso, temos que ter rigor no discurso, não dá pra ser sem critérios, e a esquerda mais pós-moderna tem um discurso do tipo: “critério é não ser conservador, tem que falar qualquer merda que vem na boca, se é a favor, vale. Isso não gosto.

(Engels) – Ahm, faz sentido!

(Marx) – Tem coisa verdadeira e mentirosa, temos que parar de nivelar tudo e achar que verdade é só o que convém, senão damos tiro no próprio pé. Exemplo: “Dilma é a prova de que mulher tem que governar”. Se o governo Dilma for bom é por que é mulher. Muitas feministas dizem isso. Agora, se for ruim, não dá pra dizer, entende Engels? A mesma mulher que diz, “o governo Dilma é bom por que ela é mulher”, se o governo é ruim, não atribui a condição de mulher, isso é incoerência. Ou o fato de ela ser mulher não vale nem pro bem nem pro mal. Isso é lógica. São muito gritantes essas incoerências. Outro exemplo. Sai uma estatística: “Os homens traem mais”. A esquerda sai botando em tudo que é jornal que homem é tudo safado. Aí sai outra estatística: “setenta por cento dos casos de pedofilia envolvem homossexuais”. Ou seja, homem com gurizinho. Aí não vale, é homofobia. Então tem que dizer que a estatística não vale, senão tu é homofóbico, ora! Pra denunciar machismo ou homofobia, qualquer informação sem procedência vira verdade absoluta; se é pra mostrar que bizarrice não é só coisa de branco, hétero ou homem, que tá em todo lugar, aí tu sempre é machista, racista...

(Engels) – Vai ser boa essa nossa discussão, mas sinto que não comeremos ninguém.

(Marx) – Resumindo, todo o mal do mundo é ser branco, hétero e homem. Que diferença entre isso e dizer que todo o mal é ser gay, preto e mulher? Nenhuma! Pois não tem argumento bom, é tudo forçação de barra, sabe Engels? Me parece que a maioria das mulheres só quer forçar a barra.

(Engels) – Caro Marx, aconteceu alguma coisa ou esses argumentos foram acumulados durante anos num sentimento de "estou sendo sacaneado"?

(Marx) – Acontece que se procurarmos pessoas com um mínimo de coerência, serão poucos, e os homens serão maioria, ao menos na nossa realidade infernal. Mas eu só estou tentando complementar a história da conferência. Se fossemos eu e tu, poderia sair até um texto bom, mas com as mulheres, provavelmente isso se dificultaria. Então o jeito é comer. Juro que não faço essas reflexões na conferência.

(Engels) – Seria a demonstração de outro tipo de inteligência, mais emocional, mas não menos importante.

(Marx) – Mas essa inteligência emocional não permite avançar debates que possibilitem mudar hábitos nocivos, é muito mais algo que se defende para poder seguir na mesma, e dar nomes novos para certas dissimulações. Ou seja, melhor comer.

(Engels) – Nananã. A inteligência emocional é perfeita pras micro-revoluções, nada melhor que ela.

(Marx) – Sim, mas conduzida como massa de manobra, elas nunca representam forças conscientes da transformação. Ou não?

(Engels) – A inteligência emocional pode sim ser usada conscientemente pra realizar um projeto socialista. E posso te dar vários exemplos pessoais. A Frida não me deu nesse finde, e eu teci algumas teorias para entender o motivo.

(Marx) – Cadê a revolução?

(Engels) – Micro-revolução, micro! Ela tá acostuma a relacionamentos burgueses e nem sabe como agir por que eu fui claro e disse que quero ser amigo dela, e pra mim tudo bem se ela ficar com outros caras, a gente pode transar, ou não, sei lá. E mesmo assim, fiz ela entender, ou tentei, que se ela ficar com outros caras não significa que ela é uma puta, ou sodomita, enfim. É uma proposta de mudança comportamental que vai colocar ela no mesmo patamar meu, de homem. Uma proposta de repensar as relações que ela teve durante toda a vida. Basicamente é isso, pra falar de machismo.

(Marx) – Mas a tua conclusão tá bem mais próxima de uma inteligência estritamente racional do que emocional!

(Engels) – Só que ela foi colocada em prática afetivamente, e não por argumentos.

(Marx) – Tem que argumentar muito pra se chegar à conclusão de que amizade com sexo é a forma de relação que eleva ela ao nível de homem, ou que é a melhor, pois na emoção cega sempre haverá uma questão mais possessiva; é natural.

(Engels) – É preciso sair com a mulher e não beijá-la, mas abraços ternos pode, isso demonstra que existe carinho independente de sexo, e que o não sexo de hoje não significa não sexo amanhã.

(Marx) – Sim, o que digo é que só na emoção tu não tecerias tais compreensões, e que o agente do processo foi racional, a emoção só foi meio, instrumento.

(Engels) – As coisas devem andar juntas. Só nos argumentos também não chegaríamos a lugar nenhum.

(Marx) – Quando alguém é só emotivo, é mero instrumento, ou seja, é intelectualmente inferior.

(Engels) (Marx) – Naão! O sentimento é outro tipo de inteligência mais profunda e ao mesmo tempo reveladora.

(Marx) – Se tu soube usar, já o fez baseado em raciocínio. Olha, Engels, tu pensou racionalmente, depois percebeu: “mas assim nessa fórmula ela não entenderá”. Aí de novo pensou racionalmente e teceu estratégias emocionais para ensinar algo totalmente racional. E ela só entendeu com uma pedagogia apropriada por que não tava preparada pro argumento cru, como uma criança ou animal adestrado.

(Engels) – Pensei numa coisa. Cheguei à conclusão, me corrija se estiver errado, de que nascemos rasos e sinceros. A criança, dizem, externa com mais sinceridade seus desejos, intenções e pensamentos. Ainda não aprendeu a omitir essas coisas. Só que isso não faz da criança melhor que o adulto. E tampouco a criança ser um gênio a faria melhor que um adulto, por quê? Por que a criança é rasa de espírito. Demora-se anos para sofrer e gozar a vida, somente com o tempo o espírito vai ganhando profundidade pra sentir o significado misterioso de certas coisas. É preciso sofrer pra compreender a tristeza alheia, por exemplo. E a empatia talvez seja a maior de todas as inteligências emocionais, porque permite que tu se coloque no lugar do outro e passe por experiências sem ter necessariamente vivido elas. Ler um livro é um ótimo exemplo disso. Essa inteligência, a que aprofunda o espírito humano, está em contraposição à burrice de ser raso, fútil, superficial, ou mesmo de enxergar somente a matemática das coisas, a simples, nua e crua razão.

(Marx) – Mas tudo isso que tu coloca já é razão total. Eu concordo! Só que a emoção é instrumento, não se impõe, a razão sim.

(Engels) – A razão pela razão leva à lógica animal, a mais irracional de todas.

(Marx) – Eu posso ser ultra-racional e não saber emocionar uma mulher, mas aí não significa que falta emoção, falta razão para instrumentalizar a emoção, a razão é que falha nesse caso.

(Engels) – Se tu pensar que é só razão tu te coloca numa situação de transformar o outro com a tua razão, esquece que é transformado ao mesmo tempo num processo dialético.

(Marx) – Mesmo o cara que consegue emocionar a mulher, mesmo não sendo culto, está sendo levado por uma lógica, talvez ele precise se lançar as emoções para perceber esta lógica, mas há uma lógica, e se ele dominar, vai sempre levar vantagem, se não dominar vai ter de depender da sorte. Eu sou transformado por outra razão, pode ser inconsciente, mas é razão. Há motivos claros para alguém fazer algo que pode ser até auto-prejudicial, a pessoa pode estar agindo irracionalmente, mas dá para explicar a atitude irracional da pessoa de forma racional.

(Engels) – Proponho um teste, velho teimoso. Eu pergunto e tu responde curta e objetivamente.

(Marx) – Vai.

(Engels) – Se tu tivesse muito capital, teria muita liberdade, de ir, vir, comprar, fazer o que fosse. Liberdade é uma coisa boa, correto?

(Marx) – Pode ser. Quanto mais se poder fazer, melhor.

(Engels) – Ótimo. Se tu fosse lindo, forte, dançasse como ninguém, e por isso tivesse muitas fêmeas a teus pés, isso seria bom, não seria?

(Marx) – Seja com grana, com o pau, com a palavra, com a beleza, com a malandragem, com a inteligência, tudo amplia possibilidades, facilita a vida. Então é melhor.

(Engels) – Prossigamos. Existe a possibilidade de tu passar a vida inteira militando e jamais ver uma evolução decente da sociedade, quanto mais uma revolução. E tem a possibilidade de tu se transformar num cara tão legal, por buscar essa revolução, que acabe isolado da sociedade que tenta empurrar pra frente. Pode acabar pobre, infeliz, sozinho, e bom demais pra qualquer mulher, isso seria ruim, não é mesmo?

(Marx) – Como alguém pobre vai ser bom pra qualquer mulher, só se for muiiito gostosão ou sei lá, mentir bem.

(Engels) – Quero dizer exageradamente bom, além da conta, de um jeito que afaste as mulheres, bonzinho.

(Marx) – Entendi. Prefiro não ser bom e despertar interesse nas mulheres. Prefiro ser machista e fingir ser burro, só não quero ser burro de verdade por que não ser burro me ajuda em algumas coisas, to bolando um novo manifesto aí; mas prefiro fingir ser burro pra pegar mulher, óbvio!

(Engels) – Perfeito! Logo, concluo racionalmente que se tu passar a vida procurando ganhar dinheiro, esculpir o corpo, descobrir como manipular as mulheres, se fingir de burro e parar de perder tempo com uma revolução que só te prejudica nesses objetivos estará muito mais perto da satisfação pessoal do que agora. Pergunto, pela última vez, por que tu não faz isso, ao invés de se preocupar com lunpens, mulheres imbecis e pobres burros?

(Marx) – Por que minha racionalidade não é individual, é histórica. Alguns se compreendem racionalmente como indivíduos, outros se compreendem racionalmente como pedaços de história.

(Engels) – Aposto que não é nisso que tu pensa quando vê uma injustiça.

(Marx) – Eu concluo, diferente de outros, que se eu comer todas as mulheres, mas meu filho for escravo, eu serei um velho frustrado. Agora, se muitas me derem fora, mas eu poder no mínimo legar a alguém algo melhor do que foi meu mundo, meu coração estará feliz. Agora tu ganhou a discussão por que eu usei a palavra coração.

(Engels) – “O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”.

(Marx) – Bah, Engels, não fala isso!

(Engels) – É a pura verdade. Foi o que Che disse.

(Marx) – Por isso digo, não fala véio. Quer me matar do coração?! Por que não conheço uma mulher que fale isso? Ou por que não viro puto? Vou me matar, não fala.

(Engels) – Deixe de bobagens homem, sabe muito bem que já estamos mortos.

(Marx) – Desculpe. É que se eu achar que todo mundo é idiota vai ser mais fácil suportar a vida, ou melhor, a morte.

(Engels) – Há muitos anos eu cheguei à conclusão de que se fosse rico, tivesse lindos filhos, também ricos, e minha vida fosse toda perfeita não seria nem um centímetro mais feliz que hoje. Por que ao passear na rua lá estaria um miserável, e pra eu ser pleno preciso que ele também possa ser pleno.

(Marx) – Isso mesmo, Engels. É isso mesmo, mas isso pode ser algo racional.

(Engels) – Não é racional, não faz o menor sentido, parece até uma doença. Imagine depender psicologicamente de outro pra ser feliz, é uma loucura. Dizem que só os idiotas são felizes, faz sentido. O homem raso de espírito é feliz com qualquer coisa, basta, como um animal, ter uma toca, fêmea, alimento, pronto, é feliz!

(Marx) – Se atirarmos tudo ao emocional, seguiremos iguais. Quando tu diz que ensinou alguém pela emoção, exprime: “adestrei”. Se a pessoa não consegue racionalizar o que tu quer mostrar, ela não tá melhor que um animal.

(Engels) – Concordo. Mas a pessoa consegue racionalizar. Só que o que tá motivando a mudança também é um sentimento.

(Marx) – Sim, claro.

(Engels) – E o maior filósofo de todos os tempos mudou o mundo baseado no amor, cristo foi foda.

(Marx) – O campo da compreensão tem que ser racional, quem só percebe emocionalmente tá no nível animal, é inferior.

(Engels) – No fim toda a razão está ligada à um impulso primordial, um desejo, um sentimento.

(Marx) – Quem não consegue trabalhar o emocional é um incompetente, mas a consciência de trabalhar o emocional já presume racionalidade, senão nada se trabalha, tudo vira pulsão. To indo pra zona.

(Engels) – Esqueceu que isso aqui não é um moranguinho? Não tem zona no inferno, só fogo.

(Marx) – Tá bem, vamos continuar conversando.

(Engels) – A mesma irracionalidade se dá em quem não consegue trabalhar o emocional. As crianças são só racional, e são um saco!

(Marx) – Capaz, as crianças são só emocional.

(Engels) – Quer mais animalismo que uma criança? Elas são só razão! A criança quer uma coisa, ela resolve que o caminho mais curto pra conseguir aquela coisa é externar. Não importa onde ou a que custo, a criança inclusive chora sem estar triste pra conseguir a coisa, é razão acima de tudo, nada mais importa, só a satisfação dela.

(Marx) – Algumas crianças querem entender tudo, apanham do pai, são uns ignorantes na vida adulta, uns podres. Outras querem ser racionais, os pais incentivam, mas na adolescência as mulheres avacalham. Alguns meninos são incentivados e comem algumas meninas na adolescência, mas cansam pela solidão de serem inteligentes. Esses são melhores que os inteligentes que tem vergonha dessa condição, mas não passam de inteligentes de gabinete. Por fim, outros são incentivados pelos pais, comem umas na adolescência, perdem outras, mas algo lhes faz ver que assim é melhor. Esses são inteligentes orgulhosos de sua inteligência que não se contentam com o gabinete, e querem mais e mais da vida, do mundo, da história. Esses são imprescindíveis, como disse Brecht outro dia. São aqueles que se mantêm mais tempo em busca de uma racionalidade, mesmo que ela seja uma utopia, pois o socialismo é o sistema mais racional. O capitalismo em si vence porque falta racionalidade. O cara que pensa que vai mais longe na busca da felicidade de forma individualista não é racional, é burro, ou não?

(Engels) – Não.

(Marx) – Há! Tô gambá!

(Engels) – O cara que vai em busca da felicidade individual é raso e racional.

(Marx) –Capaz!

(Engels) – O que vai em busca da felicidade coletiva é louco, mas necessário e apaixonado pela vida.

(Marx) – O individualista não é racional.

(Engels) – Por quê?

(Marx) – Ele é limitado no cálculo, pois não entende que é um ser social. Saber da própria socialidade é mais racional do que ignorá-la. Não temos ódio da desigualdade por pena do pobre, não é um sentimento - pena -, mas o saber racional que a paz está na igualdade. Isto é racional, querer viver em uma guerra de todos contra todos, onde sempre todos são inimigos e concorrentes, é irracional.

(Engels) – Ignorar a socialidade para atingir o objetivo fim, felicidade, é mais racional do que passar a vida tentando atingir um objetivo que pode te deixar infeliz.

(Marx) – Mas será que é mais racional pensar que a dor do outro não me dói? Pois isso me parece impossível, me parece que não se doer pela dor do outro é não ver a dor do outro.

(Engels) – Isso não é racionalismo. “Dor”, “outro”, são coisas que não têm nada a ver com a razão. Ou dói, ou não dói, não depende de argumentos.

(Marx) – Sim, te entendo Engels. Por isso que pro amor, dor, ódio, felicidade, pra isso tudo, os poetas sempre tem coisas mais consistentes a falar do que os filósofos.

(Engels) – Verdade.

(Marx) – To gambá. Por falar nisso, como é horrível ler Hegel borracho, não entendo nada. E no outro dia, são, leio de novo e vejo que é fácil. Deus é mau. Fez um mundo que é pura contradição. Deus odeia Aristóteles. Deus é pau no cú. Por que odiar o cara? Ele só quis ajudar! Tá certo que o Aristóteles era puto, mas não precisava zoar com o cara tanto! Deus é homofóbico! Se fosse um macho a interpretar a teoria da não-contradição, Deus faria um mundo melhor, mas olha o drama! Os putos tão sempre querendo falar do que não é da conta deles. Era pra um macho teorizar sobre a não-contradição. Mas o Aristóteles, vaidoso, putão, escreveu antes, invés de esperar um macho escrever. Aí Deus, homofóbico, disse: “concordo, mas não dou o braço a torcer!”. Pegou o mango, a espora e o lenço maragato e avacalhou o mundo só pra discordar do Aristóteles. Aí pergunto: quem é culpado pela contradição do mundo? Deus, que é homofóbico? Por que veado não pode reproduzir, nem lésbica, que véio puto esse Deus! Ou o culpado era Aristóteles, que ao invés de dar o cú no canto dele foi inventar de criar uma teoria pra ganhar notoriedade (todo veado é vaidoso) e irritou Deus?

(Engels) – É dureza, te falei, tá tudo errado. Com as mulheres, por exemplo, tem que ser cheio de cálculos: “hoje ligo, amanhã não”. Elas estão todas estragadas também.

(Marx) – Tu não acha machismo dizer que elas estão estragadas?

(Engels) – Não meu amigo. Eu acho que isso é entender que o machismo estragou elas, e a nós também. E que se formos príncipes-encantados-não-machistas vamos ficar tremendamente sós.

(Marx) – Por que o machismo? Por que não a incapacidade feminina de se impor? Por que não a feminilidade que empurra o macho para o extremo negro, pois não consegue sair daí? Por que o clichê do machismo? Se elas é que gostam de merda e eu quero dar-lhes o mel? Por que sou culpado por elas gostarem de merda se quero dar-lhes o mel? Quantos homens como nós sonharam fazer-lhes sentir o gosto do mel e morreram amargos e sós? Taí o Hemingway que não me deixa mentir. E quantas mulheres sonharam com o gosto do mel, será que existe alguma? Por que a culpa é nossa? Conheço vários homens tomando no cú por serem bons, mas não lembro de uma mulher capaz de valorizar isso...

(Engels) – A culpa não é nossa não, mas do machismo. Se tu for machista, as mulheres, que foram educadas para serem oprimidas desde sempre, vão cair aos teus pés. Penso que é mais forte que elas, é uma necessidade de estarem corneadas.

(Marx) – Mas por que nomear isso de machismo, como podemos provar que o homem convenceu a mulher a ser assim? Por que não dá pra nomear de feminismo, ou “desejo de ser corneada” das fêmeas? Eu tenho muitos amigos pau no cu, e me pergunto: nasceram pau no cu ou as mulheres lhes educaram assim?

(Engels) – O caso é que a mulher in natura é igual ao homem, a diferença está nas relações sociais de opressão. Pô Marx, até agora tu ainda não leu o meu “A origem da propriedade privada do estado e da família”? Tu é foda hein.

(Marx) – Desculpe, ainda não tive tempo. Mas veja bem, as mulheres que conheço que gostam de chifre foram educadas pela mãe...

(Engels) – Baah, interessante!

(Marx) – Enquanto o pai tava se emborrachando no boteco, a mãe ouvia a filha dizer: “adoro o Tolstoy, ele não é ciumento”. Aí a véia respondia: “se ele não te trai nem tem ciúme, não gosta de ti”. E aí? Às vezes tenho pena dos machos, até por que sou macho.

(Engels) – Nunca diga isso perto de uma feminista, ela te come vivo! Ou morto, tanto faz.

(Marx) – E num contexto de “Das Deciencias Humanas”, até fico com vergonha disso, pois parece uma doença ser macho, e eu não me sinto superior a mulheres e gays, mas também sinto orgulho de ser como sou. Por que tenho que me envergonhar de gostar de mulher? Acho que sofro castração de minha sexualidade quando dizem: “que feio, machista mau, chamou a Rosa Luxemburgo de gostosa”. Por que se é o que sinto, que mal há nisso? Esperei ela sair, só falei entre amigos pra não expor, por que tenho que sentir vergonha de achar a Rosa Luxemburgo gostosa?

(Engels) – É o que penso também. Aliás, é biológico sentir atração.

(Marx) – E por que o meu pente, que defende amizade colorida pois não quer ser dominada, sente ciúmes da Rosa? Eu me sinto castrado, e sou homem, branco e hétero, por que tenho de aceitar isso? Ultimamente tenho pensado: “Segue tudo igual. Os séculos XX e XXI são bem piores que os outros”. Hoje há o fenômeno da moda. Ser veado tá na moda, ser mulher também. E eu? Não tô na moda. Às vezes me sinto excluído. Os caras perguntam: “já beijou homem?”, eu respondo: ”não”. Me chamam de homofóbico, porra! Nada contra, só que gosto de mulher.

(Engels) – Isso é trovinha barata. Dia desses um me disse que só os comunistas de vanguarda experimentavam ficar com macho, prefiro ser retrógado a dar o cu.

(Marx) – Óbvio! Eu gosto de vinho, se me disserem: “revolucionário toma mijo”, abandono a luta na hora. Que merda, não agüento mais os sociólogos.