quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Crônicas de um filósofo gaudério

Capítulo I – O CREPÚSCULO DO FILÓSOFO

Texto de Vinícius Santos e Felipe Baierle

Platão Gaudêncio estava ensandecido. Depois de tantos esforços para conquistar Bárbara, tantos sistemas metafísicos recitados romanticamente ao pé daquele ouvido delicado, tantas milongas apaixonadas cantadas em frente à sua janela, tantas estratégias para envolvê-la, ele soube que ela havia se entregue de bandeja a um gordinho num bar da cidade.

O pensador gaudério, que havia tido que mover montanhas para conseguir o mesmo, não se contentava, ao escutar a descrição da cena: de camisa dos Los Hermanos, All Star colorido e óculos quadrado de armação preta que se usava nos anos 70, o gordinho delicado, conquistou a moça com a cantada mais barata do mercado:

– Vamos no bar fumar um? – No boteco sujo, entre velhos viciados em cachaça, crianças com ranho pendendo do nariz e um punhado de gatos vadios, um canto escuro presenciou o bote do gordo.

Platão Gaudêncio estava dividido. Sua parte filósofa lhe aconselhava a esquecer tudo, a seguir compartindo noites intensas com a moça, pois o amor nada mais é do que uma idealização, a moça nada mais seria do que a encarnação de uma ideia, assim, a própria honra não poderia ser manchada por um fato de baixo calão ocorrido em local propício a tais coisas. E da mesma forma que o amor, sendo ideia, poderia encarnar em outra moça, caso o pensador quisesse abandoná-la por orgulho ferido, esta mesma ideia não estaria encarnada na moça no momento em que ficou com o gordinho, pois os conceitos ali nada tinham a ver com amor, mas com coisas de corações imaturos e fechados a isso, no máximo ideias inferiores poderiam estar ali presentes, como desejo de perder a razão, beijar para chocar outrem, para provar a si mesmo que se está no nível dos animais, pois se os animais não amam, podem ser considerados mais fortes. Neste caso, a ideia de amor não estaria presente no ato, assim, ela que é a grande pedra fundamental de seu carinho pela moça, não havia sido manchada, e Platão Gaudêncio poderia dormir tranquilo.

Mas a sua parte gaudéria aconselhava-o a tomar outras atitudes. O lado campeiro do coração filosófico exigia retratações, pois sentia-se um corno desgraçado, e sua honra deveria ser lavada com sangue. Por mais efeminado que a filosofia possa deixar um homem, o que é terrunho nunca se perde, e o lado gaudério venceu de lavada o lado filósofo de Platão Gaudêncio. Passou a sexta-feira afiando sua melhor faca, uma Solingem de aço alemão, Franz Wenk, em uma chaira de sangrar porco.

Enquanto afiava a “xerenga” ia recitando em sua mente o Imperativo Categórico de Imannuel Kant, que dizia: “age de tal forma que tua ação possa ser universalizada”. O gaudério interpretava Kant da seguinte maneira: se a cornitude mansa for universalizada o mundo decairá em uma falta total de amor próprio e de respeito ao próximo, por isso, devemos universalizar a postura de nunca aceitá-la, pessoas rasteiras como o gordinho não podem andar no mundo, merecem sangrar como rês na hora do abate.

Ao passar a meia-noite, Platão Gaudêncio dirigiu-se para o boteco onde sua honra havia sido manchada. O gordinho devia estar por lá, com os olhos lacrimejantes, um cheirinho suspeito e a indefectível camisa do Los Hermanos. Mas Platão Gaudêncio era filósofo antes de tudo, flácido, sedentário e sem agilidade, e se entrasse em um embate franco com o gordinho, poderia apanhar mais que mulher de progressista, mesmo o gordinho sendo um boca-aberta explícito. Era necessário uma estratégia, usar o elemento traição, para pegá-lo desprevenido.

Platão Gaudêncio avistou o gordinho em frente ao bar, com os olhos lacrimejantes. Ao se aproximar, o gordinho lhe ofereceu pó, ele só negou com a cabeça, apontou para o céu e falou em tom alegre:

– Olha um Zepellin Gigante!

O gordinho olhou para o céu, e avistou pela última vez a poluição e os arranha-céus da cidade, e quando baixou os olhos, só viu sangue, seu bucho aberto, e a Solingem de Platão Gaudêncio enfiada em sua vasta pança até o cabo. Ele sentiu um frio momentâneo, vontade de comer bolacha Traquinas, e logo caiu sem vida sobre a calçada da rua Marquês do Herval.

Nesta madrugada, o filósofo foi para a prisão...


Capítulo II – COMO A PRISÃO MUDA UM HOMEM

Uma vez preso, Platão Gaudêncio teve de se habituar à nova rotina. Seus compromissos se resumiam as três péssimas refeições que recebia por dia e aos quinze minutos do banho de sol. Para piorar, toda vez que saía para aproveitar essa espécie de micro-liberdade diária no pátio da prisão, Jorge, um negro parrudo de um e oitenta, queixo quadrado, canelas finas e voz de trovão, passava a mão em sua bunda.

Da primeira vez que isso aconteceu, o filósofo ficou sem ação, não sabia como agir diante daquele acinte. Da segunda, se desviou dos dedos maliciosos de Jorge, que apenas ria mostrando a dentadura branquíssima. Na terceira é que a coisa complicou. Foi pego desprevenido, Jorge aproveitou-se de uma distração sua para, muito rápido, alojar a pontinha do dedo indicador numa certa região de seu rego.

– Cheiro de rosas! – disse levando o dedo às narinas. – Hoje à noite me espere acordado branquinho... já acertei tudo com o vigia para te fazer uma visita íntima.

Sem querer imaginar, mas já imaginando o que seria dele se tal promessa se realizasse, Platão Gaudêncio, num movimento automático, olhou, com interesse puramente científico, para o volume entre as pernas de Jorge. De tão escandalosamente grande parecia uma pochete. Precisava fazer alguma coisa para se livrar de investidas deste tipo ao menos enquanto o seu advogado não conseguisse o hábeas corpus. Então, de súbito, uma ideia atravessou-lhe a mente afiada de pensador.

– Eu vou mandar um recado pra geral aí ó – disse bem alto no dialeto que usavam os internos, tentando fazer cara de mau. – Tem gente aqui achando que sou... ahm... frouxo. Mas eu não sou não, e vou provar!

Todos riram. Corria pela prisão o boato da visita de Jorge ao indefeso pensador.

– Ceis tão duvidanu de mim é? Então vamos fazer uma aposta. Se eu conseguir passar essa noite sem ninguém me comer, vocês vão ter que me dar conceito. Não quero mais neguinho nenhum – olhou para Jorge – me passando a mão, certo?

Sabendo que não poderiam perder, os quase trinta internos do presídio aceitaram o desafio e ainda vieram cumprimentar Platão Gaudêncio pela coragem. Um deles, um careca usando uma minissaia, que servia de mulher aos internos, ainda foi dar-lhe um tapinha nas costas.

O Jorge vai te fazer cagar pra dentro, amiga – disse a voz afeminada. – Quando a hora chegar é melhor tu relaxar a ruela e morder a fronha pra aguentar, senão dói mais.

Quando a noite chegou, Platão Gaudêncio já estava com tudo preparado. De tão convicto que seu plano ia dar certo, dormia de bruços, despreocupado. Sonhava com Bárbara quando o ranger da cela abrindo o despertou.

– É tu, Jorge? – disse no escuro.

Sim neném, sou eu mesmo – respondeu a voz de barítono. Como vai ser, do jeito fácil ou do difícil?

Não vai ser cara, não to afim.

Jorge chegou do lado da cama e ficou satisfeito quando percebeu pelo tato que Platão Gaudêncio estava de bruços. Carinhoso, alisou a bunda do gaudério, que ficou imóvel.

– Tu diz que não quer, mas nem reage mais. Soube que tu era chegado em cobra assim que te vi entrando na carceragem. Como é, não vai nem reclamar? Então ta, segura essa branquelo! – Jorge acocorou-se em cima da vítima na cama. O filósofo, seguro de si, nada fez quando o enorme negro, no breu total, lhe tirou a bermuda.

– Ta sem cueca, né? – Jorge pincelava o grosso instrumento no traseiro flácido que tinha diante de si.

De repente, um cheiro pestilento tomou conta da cela. Jorge ainda não havia se dado conta do que era, mas a resposta veio quando percebeu que havia algo estranho grudado no seu instrumento.

– Que negócio é esse que tu passou no rabo, cara?

– Nada não – respondeu Platão Gaudêncio. – Só me caguei.

– O QUÊ! ISSO NO MEU PAU... É MERDA?

Jorge ficou furioso e aplicou uma surra de duas horas no filósofo. No dia seguinte, apesar da cara rocha, dentes quebrados e olheiras fundas, Platão Gaudêncio era o preso mais sorridente do presídio.


Capítulo III – A VOLTA DO MISSIONEIRO

Depois de poucas semanas preso, nosso herói foi inocentado, pois enfrentar qualquer pessoa só com uma faca na grande Porto Alegre, hoje em dia, é digno de ser classificado de legítima defesa. Platão Gaudêncio entrou no campus da universidade, teve um trajeto tranqüilo até a parte central, mas lá foi recebido por uma multidão enraivecida.

Na verdade era um grupo de barbudos que estava dando um abraço simbólico em uma árvore que ia ser cortada para se construir um ambulatório. Quando viram Platão Gaudêncio, um altão apontou e gritou:

– Vejam! O homofóbico racista! Esqueçam essa árvore, vamos linchá-lo, assim teremos oportunidade de aparecer na mídia.

Suas notas da prisão foram postadas no facebook, e pelo fato de ele ter resistido às investidas amorosas de Jorge, foi classificado de homofóbico e racista. Os barbudos alegavam que ele havia repudiado um inocente carinho de amigo de forma nojenta. E ele que achou que seria recebido como herói!

O mundo está perdido, ao menos o mundinho das ciências humanas. A turma começou a juntar pedras, e caminhar lentamente em direção à presa. Platão Gaudêncio sentia o fim muito próximo, suas pernas foram se estremecendo. Quando ele notou, na multidão, aquela que fora a musa de seus sonhos mais sublimes, Bárbara, e que mesmo naquela situação dramática, com uma pedra enorme na mão para golpear-lhe a cabeça, seguia tendo a mesma intensidade em seu coração. Seu fim inevitável já não mais lhe preocupava, só queria que ela lhe perdoasse. Então mirou-a de longe, aproximou-se e disse-lhe:

– Sei que nunca me perdoará por ter tirado a vida de um ser humano.

Ela seguiu com a frieza de quem está completamente fechada para qualquer afetação, e com feições impassíveis, respondeu:

– Não sou desse tipinho que condena o tirar a vida de alguém, até porque só estava experimentando coisas novas, e coisas novas sempre aparecem, nesses tempos líquidos novidades não fazem falta a uma mulher, por isso nunca te condenei por tirar a vida do gordinho, nem lembro direito seu rosto. O que você fez e nunca terá perdão foi o ato de demarcar território, seu machista! Um demarcador a menos na Terra é um passo a frente na eclosão da supremacia feminina.

Nem bem terminou de pronunciar a última frase e tacou a baita pedra na cabeça de Platão Gaudêncio que cambaleou e caiu. Ainda tonto, ele ouviu uma voz esquisita dizer:

– Pessoal, o deputado Jair Bolsonnaro está no Diretório Acadêmico de Filosofia, para um debate sobre o kit gay, a RBS TV está fazendo a cobertura, se apedrejarmos o DA teremos bem mais mídia, deixem esse pobre coitado!

Platão foi recobrando os sentidos, e ainda teve tempo de ver a multidão se afastar e cruzar a pontezinha que ia em direção aos DAs. Procurou com o olhar a moça, nem rastro... pensou em ir atrás, mas a dor da pedra lhe fez congelar. Nisso, um grupinho se aproximou, algumas meninas sorridentes, e uns rapazes com cara de choramingões. Um dos rapazes, com olhar lacrimejante, perguntou:

– O tio, onde vai ser o linchamento?

Sem titubear, com a cabeça ainda sangrando, Platão Gaudêncio respondeu que seria no DA da Filosofia, e apontou com o dedo para a pontezinha com um ar muito decidido, pois não queria levar mais pedra pela cabeça. O grupo seguiu saltitante rumo a pontezinha, ainda deu pra escutar um dos rapazes dizer “finalmente algo lúdico para fazermos nessa universidade, ficar o dia inteiro fumando maconha no laguinho é um tédio”, e uma das meninas alegres lhe perguntou: “será que vai ter maconha no linchamento?”.

Assim, o filósofo escapou à morte! O leitor deve se perguntar: e Bárbara? Pergunta tal que não Platão Gaudêncio não poderia responder de outra forma.

Eu nunca mais a vi no meu gauderiar andejo. Somente em sonhos a vejo em bárbaro frenesi. Talvez ande por aí no rodeio das alçadas. Ou, talvez, nas madrugadas seja uma estrela xirua. Dessas que se banha nua no espelho das aguadas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário