quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A cidade que se revela invisível

PERFIL DE PORTO ALEGRE

Quarta feira de sol e chuva. O vai-vem de pedestres na Rua dos Andradas lembra um formigueiro em plena atividade. A visão de cada um limita-se a poucos metros além dos próprios pés. Mesmo assim, tem alguém que pode vê-la. E até tocar, inspirado nela.

O maior público itinerante da cidade é dele. A cada quatro horas de show, 25 mil pessoas ouvem suas notas. Se somados os seis dias da semana (só folga na segunda) o número de expectadores passa de 150 mil. Grande parte finge não notar a presença do loiro barbudo que toca clássicos de Bob Dylan, Doors e Raul Seixas em troca de moedas. “Quando vejo alguém com a camiseta dos Beatles canto alguma deles, mas as pessoas nem notam, ou fingem que não”, reflete Charles Leal, além de artista, professor de inglês e técnico em eletrônica.

Um violão Yamaha com encordoamento de aço, seis gaitinhas de boca (uma para cada tom), microfone e uma caixa amplificadora com bateria interna de 12 volts. Com esse material, Charles tira pelo menos 100 reais por dia. “Já aconteceu de ganhar 300 pilas num domingo”, diz sem esconder o espanto, “mas foi uma vez só, os astros deviam estar alinhados”.

Quando a chuva aperta, as pessoas correm mais rápido. Muitos procuram o abrigo das marquises. O espaço fica pequeno. Cantando em inglês, tocando violão ou solando com a gaita de boca, as músicas de Charles saem melodiosas e fazem algum efeito.

Um casal anda vagaroso pela Andradas. Parecem infelizes. O homem se aproxima com a mulher e pede uma música. “Agora vão ter que dançar hein!”, diz Charles ao iniciar os acordes românticos. O casal não dança, mas quase. Abraçados, ele atrás dela, o som os embala. Léia sente o bafo de Alcir no cangote e fecha os olhos. Algo mudou ao som de Have You Haver Seen The Rain, do Creedence. “Tava deprimido, com problemas de dinheiro, me senti bem aqui”, confessa Alcir, 35. Quando termina a música, três pessoas batem palmas. Charles fica faceiro. Hoje conseguiu agradar ela.


No sábado à noite, as pessoas no cruzamento da Lima e Silva com a República atingem o máximo da sua capacidade em ignorar o mundo. Nem notam o mendigo com saco preto catar latinhas ao mesmo tempo em que canta aparentemente apaixonado. Embriagado de cachaça, ele mete o olhar vago bem no fundo da cara dela, que só ele, ao menos ali, enxerga de verdade. E canta com a língua enrolada, “olha, da primeira vez que eu estive aqui, foi em busca de carinho, eu precisava de alguém...”.

Na maior parte das vezes em duplas, os caras tremulam de ansiedade ao ver o que chamam de “baita gostosa” rebolando o “rabão” e, quando aparece uma, soltam um sonoro “meeeu Deus, que isso?!”. Não por acaso estão ali, precisam transar.

As moças agem um pouco diferente. Andam em número maior, às vezes oito. Funciona como tática de ataque. Quanto mais, melhor. Um grupo numeroso delas é capaz de atrair dezenas de olhares numa só tacada. Elas fingem não dar a mínima, embora o passar de mãos nos cabelos denuncie a vaidade depois de receber um elogio. Algumas ficam andando para lá e para cá horas. Dizem que estão passeando, mas não. Estão desfilando para os caras.

– Eu gosto de andar na rua por que tem bastante gente, todo mundo vem para cá – admite Daniele Weber, 25, uma loira de 1,75m, olhos verde-água.

O mendigo continua invisível. Mesmo quando dança, canta, ou pede um cigarro. O clima tenso da Cidade Baixa não é para brincadeiras. Um olhar mais apurado revela: apesar dos risos exagerados dos rapazes e dos braços dados das moças, a competição está no ar. Nos homens, os ombros apertados e olhar sempre à procura de algo comprovam o fato. Nas mulheres, o andar empertigado e umas olhadelas para ver se foram notadas revelam: precisam ser desejadas.

Perto da meia noite o trafego aumenta. O cruzamento da Lima e Silva com a República recebe em torno de 25 carros por minuto e as pessoas à pé nesse tempo passam de 80. Gente que atrai todo tipo de trambiqueiros. Pela bagatela de cinco reais, dá pra comprar um isqueiro com lanterna embutida que projeta o símbolo do Grêmio ou Inter; DVDs piratas de filmes ainda em cartaz nos cinemas; CD’s com raridades da história da música; pulseiras, brincos, aneis e colares; ou, em alguns casos, sustentar os pais de crianças pedintes.

Um careca sentado com um amigo na mesa do Pingüim, tradicional bar da Cidade Baixa, fala ao telefone sem perceber a menina de no máximo 12 anos que se aproxima. Cabelo encaracolado preto, olhos castanhos, calças velhas, olhar diligente, ela entrega um papelzinho por pessoa. “Pedir é melhor que roubar...”, lê-se. Depois de distribuir o material, passa novamente entre as mesas e recolhe a féria. São algumas moedinhas apenas. Mas multiplique o valor por oito irmãos e calcule o lucro do negócio. Ainda mais que eles vêm de ônibus do Morro Santa Tereza e passam por baixo da roleta - gasto zero com transporte.

O careca segue no telefone: “me espera acordada, vou passar aí lá pelas 3h30”, sorri malicioso. Enquanto isso a criança faz o trabalho. Fala apenas o necessário, permanece transparente. Para e conta as moedas conquistadas no bar. Ninguém a vê até que derruba cinco centavos. Olha pro chão desconsolada. Perdeu a moeda. Pequenas rugas aparecem pouco a pouco no queixinho. Chorando alto ela começa a chamar atenção. De joelhos, no chão, a criança sozinha muda o clima da noite. O Bar silencia contemplativo naquele trecho. O pânico de perder uma única moeda da a dimensão da menina, como escrito no papel “... preciso ajudar minha família”.


Alexandre, 39, resume em poucas palavras a relação complicada: “às vezes a gente enxerga o rosto de uma pessoa e não sabe quem ela é de verdade”.

Sozinho, na Redenção, com uma mochila esfarrapada, ninguém dá nada por ele. Mas, para mostrar o que sabe, o negro maltrapilho estica a mão direita em posição ameaçadora... cambalhotas, pulos desengonçados e o chacoalhar de pernas lembram um tipo de dança maluca. “Aprendi Artes Marciais na rua”, explica o hóspede da Redenção.

Segundo pesquisa realizada pela UFRGS em 2007, assim como Alexandre, 42% dos moradores de rua da capital ficam sozinhos o dia inteiro. Sem muito que fazer, a vida é gasta com cigarro, cachaça, crack e passeios sem rumo. Geralmente acorda às 8h ou 9h, cata latinhas e outros materiais para ganhar algum dinheiro. Estimativas apontam que 22,9% dos sem teto da cidade mantém a mesma atividade.

Alexandre foi para a rua provavelmente há anos, mas em virtude de um provável transtorno mental não consegue mensurar corretamente. Diz que são apenas “dois meses”. Algumas coisas ele diminui, como o período na rua, outras aumenta: “esse prédio (Colégio Militar) veio da Espanha há mais de mil anos. É do tempo da escravatura”, devaneia. A dura vida de quem não tem casa, somada à violência, favorece o aparecimento de transtornos psicológicos e doenças mentais desse tipo. Das pessoas em situação de rua de 35 a 44 anos, 30% apresentam problemas de saúde mental.

“Saí de casa por que levei uma pancada de ferro na nuca. O otário do meu cunhado me abriu a cabeça. Fui pro Pronto Socorro, mas não quiseram me atender sem documento”, revela magoado. A receita para se curar, conta, foi lavar a cabeça todos os dias com sabão de coco até a ferida cicatrizar.

Depois dessa, a rua restou como saída. Ele diz que não gosta de dormir ao relento, claro. E reclama dela. “A cidade machuca a gente; por dentro e por fora”.

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