quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dora


Capítulo 2

A paisagem escorreu borrada do outro lado do para-brisa. Dora enxergou uma casinha solitária, algumas vacas, um boteco onde bêbados provavelmente gargalhavam. No volante do velho Ford estava Ivo. Era um caminhoneiro quieto, pelos seus cinqüenta anos, barba espinhenta, desses que fumam cigarros baratos. Tinha a mão sobre a coxa de Dora, que continuava distraída com a estrada.

– Onde vamos dormir esta noite? – ela quis saber.

Muitas horas adiante, plena madrugada, fizeram amor na boléia outra vez. Estavam vivendo assim já havia várias semanas. Dora embarcou como caroneira e gostou tanto das histórias de Ivo (quando ele resolvia falar) que rapidamente assumiu o posto de sua primeira dama.

Ele não fazia perguntas, tampouco às respondia. Ainda mais que Dora, ele era uma pessoa de ação, não de palavras. Certa noite, quando bebiam cachaça no bar, bastou um breve comentário sobre as pernas dela para que comprasse briga com três caminhoneiros. Dora o ajudou, sem o que agora ele talvez fosse um cadáver, pois um dos homens puxou uma faca.

Ao invés de agradecer pela ajuda, como ela esperava, Ivo se limitou a arrastar o corpo suado até o “bruto”, como chamava o caminhão. Dora ficou irritada com a pouca importância que lhe era dedicada. Acordou-o para reclamar, inclusive.

– Eu acabei de ter o corpo todo moído de porradas – Ivo resmungou. – Cale a boca e durma.

O que sentiu ao ouvi-lo dizer isso não foi ruim, senão ele realmente teria sido morto aquela noite. Começou a entender como Ivo agia. Afinal, ele tinha demonstrado algum cuidado por ela ao enfrentar os três homens – e isso era muito mais do que a maioria das pessoas costumava fazer.  

Dora pegou cada vez mais gosto pela liberdade que sentia na estrada. Havia um país a ser desbravado e ela não pretendia recusar tal desafio. Entregavam mil sacos de farinha em uma cidadezinha esquecida no interior de Minas para logo depois cruzarem o país até o Acre com uma carga de algodão. Comiam o que os bares baratos lhes ofereciam; bebiam bastante, sobretudo cachaça; Partiam rumo a outro lugarejo do qual ninguém jamais ouvira falar; estradas de chão afora, esticavam a rede em paradouros na Bahia; dormiam na boléia no caminho para Santa Catarina.

– Desce do caminhão – Ivo disse uma manhã.

Dora tentou imaginar o que se passava. Como não conseguiu, desceu. Ivo também. Ele olhou para o céu azul límpido, depois para a estrada. Era uma longa e solitária rodovia de asfalto esburacado.

– Está bem – ele continuou. – Agora pode subir... não, aí não. Vá do lado do motorista.

Um relâmpago de satisfação perpassou os olhos de Dora, que afinal queria aprender a dirigir o bruto.

– Você dirige carro? – Ivo perguntou, no banco do carona.

– Sim, mas é muito diferente...

– É a mesma coisa. Vou dormir algumas horas, tente não nos matar.

Ele deitou-se no banco e em menos de dois minutos começou a roncar. Devia mesmo estar cansado. Dora ligou o rádio e sintonizou em uma estação que tocava Odair José. Aprendera a gostar desse tipo de música ultimamente. Girou a chave fazendo o Ford roncar seu velho motor. Sabia dirigir carros muito bem, caminhões talvez fossem como carros grandes. Relaxou um pouco quando terminou de percorrer (a 40 km/h) o primeiro kilômetro. Aumentou o volume do rádio e acelerou até 60, 80, 90... Estabilizou-o em 110, fazia as curvas aos solavancos. Ivo acordou em uma das guinadas, viu o jeito maluco que ela dirigia e não deu a mínima.

Pegar a direção do bruto acabou se tornando um vício. Se antes gostava da liberdade só por estar na estrada, agora sabia que tal sentimento só era pleno quando estava ao volante. Ivo não se incomodava. Muito pelo contrário, aproveitava para encher a cara. Por vezes ficava de olhos muito vermelhos por causa da bebida, nessas ocasiões conversava um pouco mais que de costume.  

– Faz trinta anos que dirijo este caminhão. Sei que não sou muito de falar, mas queria que você soubesse que estou... bem, você sabe.

Dora tirou a mão do volante e diminuiu o volume do rádio.

– Não sei. Do que você está falando?

Ivo bebeu mais um gole de cachaça.

– Costumava ter uma vida solitária na estrada...

– E?

– É bom ter alguém para dividir a boléia.

Ela esticou o braço até a garrafa de Ivo e bebeu um longo gole antes de devolvê-la.

– Tudo que sei é ser um bom caminhoneiro, e isto é o que tenho feito desde os anos oitenta. Costumava gostar da vida na estrada. Sexo barato, comida boa, meu próprio caminhão, liberdade. Acho que a liberdade é um vício tão perigoso quanto a cachaça, ou ainda mais. Você experimenta um pouquinho e na mesma hora fica dependente.

Os olhos de Ivo estavam perdidos na escuridão da estrada. Dora lembrou a espécie de transe em que suas vítimas entravam quando repassavam a vida.

– Ainda lembro do frio na barriga de quando peguei a estrada sozinho pela primeira vez. Ao passar em alguma rodovia no meio do nada me borrava pensando no que faria se um pneu furasse. Mas isso era parte da diversão. O medo deixava tudo com cara de aventura. Na primeira viagem fui do Paraná até o Rio Grande do Sul. Na segunda, do Rio Grande do Sul até a Bahia. Tempos depois já tinha me acostumado a cruzar o Brasil de ponta a ponta.

A barba do caminhoneiro subitamente adquiriu um ar de sabedoria que Dora jamais tinha lhe atribuído antes.

– Cheguei a ter uma boa quantia de dinheiro no banco. E ainda deve estar lá, porque nunca consegui sair da estrada para gastar. Acabei descobrindo, com o passar dos anos, que já não me sentia livre percorrendo o país, estava viciado. E todo vício acaba sendo uma prisão. Me tornei cada vez mais sozinho, me acostumei a ficar quieto por não ter com quem conversar. Até que você apareceu, Dora. Sinto que sou capaz de largar meu vício desde que a conheci. Só queria que você soubesse.

Com a cabeça escorada no vidro da porta, Ivo aos poucos adormeceu. Dora dirigiu até um hotel na beira da estrada aonde o deixou dormindo.



– Ela roubou meu caminhão.

Era só o que o dono do botequim ouvira de Ivo a noite inteira.

– Essas coisas acontecem – disse, por hábito.

– Como assim, ‘essas coisas acontecem’? Quantos malditos caminhões você já viu serem roubados por mulheres na carona?

– Só estava tentando ajudar.

– Se quer ajudar, sirva mais um – inclinou o copo vazio.

Bebendo a noite inteira, Ivo se tornara amargo. Reclamava o tempo inteiro sem conseguir tomar nenhuma decisão, parecia resignado a encher a cara para sempre. Ainda não se acostumara com a ideia de ter perdido o caminhão. Também, devia ter desconfiado, aquela história toda estava boa demais para ser verdade.

– Escuta, você não tem nenhuma ideia de onde ela vai vender a carga?

– Duvido muito que faça isso – Ivo disse. – Agora eu percebo: ela é a porra de uma maluca. Aposto que está se divertindo com o bruto por aí.

Tomou o martelinho de um gole só. O dono do bar encheu-o novamente.

– Vai rodar com meu caminhão até Deus sabe onde. É, eu vi aquele olhar quando ela dirigia.

– Se você descobrir para quem ela vai vender a carga talvez possa...

– Me responda uma coisa, idiota. Para quem você acha que ela vai vender uma tonelada de minério de ferro? Não existe bandido que compre uma coisa dessas. Esqueça.

– Então ela vai abandonar a coisa por aí.

– Ou vai fazer a entrega e ficar com o dinheiro.

Ivo esvaziou o copo como da última vez.

– Isso seria muita burrice. Ela deve ter imaginado que você avisaria a polícia.

– Ah, a polícia! Eles nunca fazem merda nenhuma. E depois, não gosto da polícia. Não, ela sabe que eu nunca faria isso. Deve estar levando a carga até o ponto de entrega confiante de que eu não vou saber para aonde foi. Mas ela vai se perder nas estradas sem placas, só um caminhoneiro experiente sabe rodar naquela serra.

– Ah, decidiu ir atrás dela.

– É claro, animal. Como pensa que vou dormir sem resolver isso? Por ela ter me abandonado eu nem ligo, mas roubar meu caminhão!

Ivo olhou seu copo vazio.

– Logo vou estar no encalço dela, mas antes... sirva outra dose.



Sem Ivo, Dora demorou duas vezes mais para chegar ao destino, mas pouco se importou. Uma vez que estacionou, recebeu pela entrega da carga sem problemas e agora se ocupava em gastar o dinheiro.  

Poderia ter comido no melhor restaurante da cidade. O que fez, contudo, foi procurar um bom paradouro. Serviu-se como um típico caminhoneiro: carne de panela pingando molho vermelho, purê de batatas, arroz, feijão, aipim frito e farinha de mandioca. Tal qual os demais clientes, ela tinha uma pequena montanha de comida erguida no prato.

Terminado o almoço, antes de deitar na boléia para fazer a sesta, se deu conta da beleza do lugar em que estacionara. Estava bem em frente a um profundo precipício apinhado de árvores. Era quase como se a exuberância da cidadezinha serrana fosse um prêmio pelo seu trabalho. Claro, ganhar dinheiro era ótimo, mas a verdadeira recompensa era a mata que forrava o abismo de verde. Lembrou-se da pressa de Ivo, que nunca queria parar muito tempo em lugar nenhum e sentiu-se bem por ter se livrado dele.



Tendo acordado no meio da tarde, levou o bolo de dinheiro que ganhara e entregou-o para a cafetina local.

– Quero que feche as portas e coloque todas as mulheres à minha disposição – exigiu.

O puteiro era uma espelunca caindo aos pedaços. Olhando de fora, parecia uma cabana de madeira comum, embora fosse decorado com muitas luzes coloridas. Dora se divertiu até de madrugada. O lugar transformou-se em uma casa muito alegre. Havia muita bebida, sexo, e gargalhadas – tinha esquecido como as prostitutas costumam ser bem-humoradas.  

– Sua vadia suja.

Ivo estava lá.

Embriagada demais para fazer qualquer coisa, Dora sentiu dedos grossos apertarem seu pescoço por um tempo antes que um segurança a socorresse.

– Tire as mãos de mim, desgraçado. Essa cadela roubou meu caminhão... ah, eu vou te pegar, vadia.

– Pode largar ele – Dora disse massageando o pescoço dolorido. – É assunto meu.

– Mas... se eu fizer isso... ele vai te bater, não vai?! – o segurança respondeu olhando para o caminhoneiro imobilizado.

– Estou dizendo. Pode largar.

Ivo foi pego de surpresa pela atitude de Dora. Mesmo assim, tentou demonstrar mais determinação do que realmente sentia.

– Aquele macaco não vai te proteger para sempre. Quando sairmos daqui eu vou te matar com as minhas próprias mãos.

Dora duvidava muito. Sabia exatamente como cuidar de Ivo, de modo que isso não lhe causava grandes preocupações. Estava aborrecida apenas com o alvoroço que ele fez assustando as meninas.

– Como você entrou aqui, meu bem?

– Quando disseram na cidade que o puteiro estava fechado porque uma mulher queria todas as vadias só para ela tive certeza de que seria você. Meti o pé na porta e pronto, lá estava a maldita ladra que roubou meu caminhão.

Dora bebeu um pouco de café preto que uma das meninas trouxera.

– Vamos sair logo daqui para conversar. Onde está o bruto?

– Se eu disser você é bem capaz de me matar na mesma hora. Vamos, Ivo, beba alguma coisa, afinal, é você mesmo quem está pagando.

Ele ia começar a rosnar de novo quando Dora levantou-se e foi até a copa. Voltou com uma garrafa de cachaça de alambique já aberta. Nem se preocupou em pegar copos.

Sem ter muito o que fazer, Ivo bebeu. Entornou, nervoso, um terço inteiro do líquido amarelado. Precisava descobrir o que Dora fizera do bruto, só esperava que não o tivesse vendido ou qualquer coisa do tipo.

– Isso ainda vai acabar te matando – Dora disse.

– Cale essa boca. Desde quando deu para regular minha cachaça? Ei, você – apontou uma das meninas – sente aqui... isso, no meu colo.

Ivo bebeu bastante, mas não o suficiente para ficar inútil. Continuava determinado a vingar-se como pelo menos uma boa surra. Dora, por sua vez, continuou no café preto até ficar sóbria. O dia já amanhecia quando ela resolveu ir embora.

– Ei! Aonde vai sem mim? Não pense que esqueci das contas que temos a acertar.

– Venha, vou mostrar onde deixei o bruto.

Ao sair do puteiro, Dora não importou-se com a chuva gelada que penetrava em suas roupas. Pensou que sentiria falta do caminhão – e de Ivo também. Por que o idiota teve de vir atrás dela? E por que lhe bateu? Agora precisava vingar-se, seria contra seus princípios deixá-lo vivo.

Chegaram ao caminhão com alguma dificuldade. Dora praticamente arrastou-o pela lama até a beira do precipício. O sol começava a despontar por entre as nuvens do horizonte nublado e a chuva aumentara de intensidade.

– Você está morrendo – disse a ele. – Eu te matei.

Ivo riu.

– Eu é quem vou te matar, piranha desgraçada.

– É mesmo? – Dora tirou um canivete do bolso e o colocou na mão dele. – Pois então faça.

Ivo fez algumas tentativas débeis de perfurá-la, mas não pôde nem ao menos segurar o canivete direito.

– O que você fez comigo?

– O veneno que coloquei na cachaça praticamente já paralisou os seus braços. Logo, as pernas também vão ficar assim. Depois você morrerá lentamente.

Ensopado, Ivo mirava os olhos de Dora e, por mais que tentasse achar que aquilo era uma grande brincadeira, não via senão verdade no que ouvira.

– Bem, pelo menos você está ao meu lado, velho amigo – Ivo deu um tapinha débil no pára-choque do caminhão.

Segurando-o para que se mantivesse em pé, Dora disse que lhe realizaria um último desejo.

– Me ajude a chegar ao volante.

À beira do precipício, Ivo sentia o caminhão tremer antes da última partida. Dora tinha engatado a primeira marcha. Tudo que ele precisava fazer era deixar o peso do pé cair sobre o acelerador.

– Adeus... – ela gritou.

Ivo passou longos momentos encarando a mulher que o matara fixamente. Lá fora, com a água da chuva escorrendo no rosto, ela estava mais linda do que nunca.  

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O abingance

"O estranho deixou a cama e correu até onde estava a caixa. Tirou o manto ficando completamente nu. Pela luz tênue que irradiava na frente dele, Henri viu costas realmente magras de onde sobressaíam ossos pontudos que pareciam prestes a rasgar uma pele amarelada. Veias verdes insinuavam-se em toda a parte. A cabeça era o pior. Henri nunca nem ouvira falar de nada como aquela cabeça, então teve certeza de que aquele ser, fosse o que fosse, não era humano. Tinha olhos pequeninos como grãos de feijão brilhantes e escuros, o nariz era parecido com rabo de rato, só que mais grosso e curto. A boca parecia não existir, até o momento em que se abria e revelava uma quantidade incrível de... dentes? Henri não tinha certeza se eram mesmo dentes."


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(capítulos de um a quinze)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dora

Capítulo I

Pensou que seria impossível apaixonar-se mais pelo homem que estava algemado na cama à sua frente – e, no entanto, estava excitada, iria matá-lo.

Rodrigo era um desses comunistas de boteco que tem sempre os olhos brilhantes, dão abraços de verdade e citam versos de Neruda aqui e acolá. Dora apaixonou-se quando o viu declamar num acampamento da esquerda (com certa dor cativante) este verso: “Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras”.

Foi aí que decidiu matá-lo.

Agora ele estava algemado à cama, num quarto amplo de uma casinha no interior. Dora levava as vítimas para lá. O pequeno sítio que herdara da avó era perfeito para suas aventuras.

– Pensei que você estava brincando quando contou ter envenenado o vinho – Rodrigo disse, com ar cansado.

Dora ficou satisfeita, finalmente ele tinha ultrapassado a fase da resistência e entrara na da aceitação.

– Meu bem – ela sussurrou – uma hora você teria que morrer, e tenho certeza que sempre soube que poderia ser a qualquer momento. Pois bem, chegou a hora, quero que aproveite ao máximo seus últimos instantes.

Beijou a testa dele sem se importar que estivesse um pouco suada.

– É sério o que você disse sobre fazer um último desejo? – ele perguntou.

– Peça o que quiser, se for minimamente possível, eu terei o maior prazer de dar a vida para realizá-lo.

Dora falava sério. Fosse o que fosse, ela executaria qualquer pedido de sua vítima, mesmo que contra ela mesma. Contudo, perto da morte, ninguém nunca pedira para ela fazer algo assim; as pessoas pareciam estar mais preocupadas em resolver pendências de suas histórias que, por algum motivo estúpido, sempre deixaram para depois e só agora percebiam a real dimensão que tinham.

Claro, isso também acontecia porque Dora tomava o cuidado de escolher apenas vítimas que realmente valessem a pena. Não teria o mínimo sentido acabar com um pobre coitado que ainda nem sequer percebeu que está vivo e que pode fazer qualquer coisa.

– Quero que escreva uma carta para meu filho.

– Você tem um filho?! – Dora surpreendeu-se.

– O Edu tem seis anos. A minha primeira namorada engravidou dele quando ambos tínhamos dezessete.

Pensou em soltá-lo, mas agora era tarde. O veneno poderoso já estava espalhado pelo corpo num fluxo sem volta, a vida escorria para fora dele. Então Dora respirou fundo e chorou. Não de tristeza, e também sem escândalo, chorou pois sabia que aquele seria um dos momentos mais profundos da sua vida; surpreendeu-se ao perceber que aprendera a gostar um pouco mais de Rodrigo no último instante.

– Lá se vão cinco anos sem que eu consiga passar mais do que dois ou três dias seguidos com o Edu. Agora ele mora no Uruguai com a família do avô, o velho Antônio.

Rodrigo respirou fundo, fechou os olhos como se tentasse concretizar a presença do filho ali.

– Queria saber quais são seus sonhos de menino – ele continuou. – Será que quer ser astronauta, ou paraquedista? Queria aprender com ele uma nova brincadeira de criança.

– Dizem que o homem renasce nos filhos – Dora disse muito séria.

– É a mais pura das verdades. Dora, pegue papel e caneta para escrever o que vou lhe dizer, sinto que não me resta muito tempo, e odiaria partir sem deixar um adeus ao meu filho.

Ela olhou o relógio, e contabilizando a quantidade de veneno que administrara no vinho, disse para Rodrigo que ele ainda teria mais duas horas pela frente. Pediu então para que ele lhe falasse mais do pequeno Edu.

– O meu filho é minha vida inteira. Acho que as coisas que ele mais gosta no mundo são comer miojo com salsichas e matar zumbis no vídeo game. “Paiê!”, ele me chama. “Me ajuda a matar esse monstro que ta muito difícil”. Eu vou lá e ficamos foliando a tarde inteira. Eu sempre soube que esses momentos eram únicos, agora sei também que meus últimos pensamentos vão estar carregados disso.

Dora sentou na cama pousando em Rodrigo seu olhar curioso.

– Ele tem os meus olhos, sabe? O mesmo castanho caramelo que herdei do meu pai. É tão incrível pensar nisso, e misterioso, e infinito... Lembro bem do que sentia pelo meu pai, era um misto de medo, respeito, amor e devoção; e isso que o velho não foi lá o que se pode chamar de pai exemplar. Agora, quando consigo estar com o Edu, nos pequenos momentos que a justiça me permite, vejo essas e outras coisas vertendo dele e penso se o meu pai também percebia isso em mim. Ou então, quando o Edu senta de um jeito parecido comigo, a mão direita escorada no joelho; ou quando usa uma expressão que sei que ele só pode ter ouvido de mim; até mesmo ao notar nele o mesmo espanto com as pequenas coisas da vida; nestas horas é como se o mundo inteiro fosse feito de poemas.

Dora maravilhou-se com Rodrigo, uma beleza única que desaparecia bem diante dela.

– Estou escandalosamente apaixonada por você.

Não era comum ver-se entregue daquele jeito, ela pensou. Tantos homens e mulheres já havia matado, e cada um havia proporcionado momentos de violência únicos, ou de loucura, sonho, tristeza...

Sem querer lembrava-se das outras mortes, como se as comparasse naquela espécie de divã que o sítio se tornara. Uma vez, por ter calculado mal a quantidade de veneno, teve de lutar com uma moça de 18 anos. Desesperada, a menina magrela havia dobrado de força e tamanho, Dora quase foi morta. Foi depois disso que matriculou-se nas aulas de Boxe numa academia no centro da cidade.

Esta acabou se mostrando uma decisão muito acertada. Até porque, nas aulas, sentia o corpo inteiro tremendo de prazer ao imprimir golpes contra adversários invisíveis (ou mesmo contra os colegas). Era a aluna mais aplicada, conhecida por gostar de disputar a sério com homens e mulheres, queria sempre que lhe dessem socos de verdade, e era como retribuía também.

Não que fosse boa desportista, ou quisesse se tornar uma grande pugilista. Estava se lixando para isso. O caso de Dora era de paixão pela violência. Desde criança, aliás, ela sempre gostara de bater nos primos, mesmo nos que eram três anos mais velhos. Gostava também do ódio quente que lhe sobrevinha quando eles lhe correspondiam. Em cada doído ou roxo no corpo ela guardava um prazer sádico, sentia que a dor a fazia sentir viva, e mais uma vez ia procurar encrenca.

Se alguém tivesse parado para observá-la atentamente naquela época, talvez tivesse se dado conta do que viria a seguir, de que a menina mais linda da família se tornaria uma rebelde aos treze, ladra aos dezoito, e assassina aos vinte. Hoje era tudo isso, e muito mais. Com as mortes aprendera a manter o espírito em crescimento, sempre se alargando mais, como um rio que vai ao encontro do oceano.

Mas hoje estava tudo tão diferente. Rodrigo ali, a fazia sentir aquela ternura que lhe vinha tão sincera quanto a raiva em outros dias.

– Queria saber por que você faz isso com as pessoas – ele disse.

Dora percebeu que fora observada.

– Certa vez, uma das pessoas que matei, disse que os humanos são seres em constante mutação. Ao acordar de manhã cedo, nem as suas células são as mesmas de ontem, os pensamentos acumulados até o momento te jogam a outros novos, é impossível evitar a mudança.

Ela olhou-o séria, como se para ver se prestava a devida atenção.

– Eu tento acelerar o processo – prosseguiu – e por isso mato as pessoas. Por algum motivo, quanto mais vidas tiro, maior me torno. Não procuro maturidade. É outra coisa. Sinto que estou me expandindo... e a cada centímetro crescido preciso crescer muitos mais, como um vício, uma necessidade.

Rodrigo franziu o cenho ligeiramente. Deixou-a falar por um tempo, sem interromper.

– Foda-se essa merda de mundo – ele disse. – Só sinto por deixar o Edu.

– “Sábio é o homem que sabe quando está perdido”.

– Over the hills and far away, do Led, não é? – ele lembrou da música. – Mas a tradução correta é “Sábio é o homem que sabe o que está perdendo”.

– Deixe de ser burro! – Dora foi da ternura à raiva muito rápido, como era seu hábito – “Sábio é o homem que sabe quando está perdido” é muito mais bonito, o que importa a tradução real se essa é tão melhor?!

Achou que talvez ele não fosse tão interessante assim.

Rodrigo, por outro lado, percebeu como Dora, que se dizia larga e em crescimento, poderia ser tão facilmente provocada e ficar como criança. Riu alto, meio em desespero, pois a morte agora estava tão próxima que já podia antever-lhe o rosto. Consumiu todo o riso até sentir-se satisfeito. Então ficou pensativo outra vez. Dora, ao lado, parecia prestes a queimar a casa toda – e realmente era nisso que pensava.

Passaram um tempo assim. Até que Rodrigo rompeu o silêncio por uma música.

– “Eu sei que determinada rua que eu já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos, e que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez. A morte surda caminha ao meu lado...”

– “E eu não sei em que esquina ela vai me beijar”. Canto para minha morte, do Raul – ela disse, abandonando o plano de incendiá-lo.

Levantou-se e foi até outro cômodo. Quando voltou, trazia uma pesada máquina de escrever e algumas folhas em branco. Restava pouco tempo, era hora de começar a carta.

Rodrigo sentiu o nó na garganta apertar muito forte, o medo assaltando-o de vez em quando. Contudo, sabia que precisava dar adeus ao filho, e isso o ajudava a não perder o controle. Pensou um pouco, organizando tudo que queria dizer. Cravou os olhos no teto e ficou com o olhar baço.

Vendo-o assim, Dora percebeu que ele estava jogado em pensamentos e lembranças, naquele transe que as pessoas ficam quando sentem melancolia, saudade, tristeza e amor ao mesmo tempo.

– Meu filho, infelizmente esta será a última vez que lhe falo; e como sinto por não poder abraçá-lo – Rodrigo ditou.

“Lembra aquela vez, quando vimos um filme juntos e você perguntou por que nunca tínhamos tido uma conversa ‘de homem para homem’? Então Edu, desta vez teremos. Preciso falar de coisas sérias, e isso pede uma conversa como a do filme.

“Em primeiro lugar, quero pedir que sempre cuide da sua mãe como ela merece. Talvez um dia, quando ficar mais velho e a adolescência chegar (sei que parece longe, mais fica calmo e aproveita a infância enquanto é tempo), você sinta raiva dela por não ter deixado que convivêssemos mais, por ter usado a lei para nos afastar. Não fique brabo, Edu. Ela age assim porque se sente muito só e tem medo de perdê-lo. Tampouco gostaria de vê-lo aceitando tudo que ela diz ser certo ou errado. Sempre pense por si próprio, você herdou a teimosia da minha família e, por mais que isso às vezes possa ser um problema, em outras oportunidades poderá salvá-lo, acredite.

“Agora você tem seis anos, e a escola ainda é feita de desenhos e letras que se juntam para formar novos sons. Lembro bem de quando estava aprendendo o bê com a, dá ba; bê com e, dá be. A teimosia da família já estava em mim por essa época (herdada do seu avô). Eu pensava: “como que ficar repetindo o que a professora diz vai me ensinar a ler?”. Teimosia Edu, às vezes atrapalha. Fui aprender a ler, desesperado para não rodar, no final da primeira série. Por isso, mesmo que pareça burrice o que lhe dizem para fazer, acredite nos professores. Sua vida na escola vai ser mais fácil assim.

“Chegará o dia em que os outros meninos vão implicar com você. Vou explicar como funciona a coisa. Eles se juntam em uma turminha de mal-encarados e começam a arranjar motivos para bater nos mais fracos, é uma situação difícil, mas vou tentar ajudá-lo. Entenda desde já: avisar a professora, ou a sua mãe, não adianta de nada. Um homem precisa resolver seus problemas ele mesmo. Use a cabeça! Chame os outros meninos que estão apanhando (você não será o único) e dê uma boa surra nos brigões. Se ninguém mais tiver coragem de ir com você, quero que arranje um bom pedaço de pau e bata com força nas pernas do líder dos brigões; Talvez ele queira bater em você de novo, é claro, mas aos poucos vai aprender a respeitá-lo. Também, essa é a única época da vida em que se pode fazer isso. No futuro, brigas serão caso de polícia, e não de professora, aproveite enquanto pode fazer justiça com as próprias mãos.

“Preste atenção, não tem nada que o pai odiaria mais do que ver você se tornando um dos valentões. Prometa que só vai fazer essas coisas para se defender, ou para ajudar um amigo.

“Depois, vai chegar o dia em que você se interessará por meninas. Vai achá-las estranhamente bonitas e, meio sem saber como, tentará agradá-las. Cuidado! Nesta época elas crescem mais rápido e são terrivelmente fortes e más. Podem querer bater em você, e todos sabem que elas podem ser terrivelmente vingativas quando querem. Nunca tente enfrentar uma, é perda de tempo.

“Ensinar a reagir aos meninos brigões era mais fácil, já com as meninas... nunca se sabe ao certo. Você pode dar uma flor para uma delas e ela chamá-lo de ridículo na frente de todos – ou pode resolver premiá-lo com um beijo. O que fazer? Acho que o maior segredo com elas é arriscar. Se quer dar uma flor, dê. Se acha que ela não dá bola para você, tente ter ideias diferentes, não desista; ou desista quando achar que deve. Tenha coragem, meu filho – coragem.

“Sua mãe foi extremamente difícil de conquistar. Fugia quando eu achava que estava quase ganhando um beijo, ou aparecia toda sorrisos justo quando eu estava prestes a desistir dela. Tenho um amigo que diz que mulher não presta. Ele também diz que mulher é a melhor coisa que Deus fez. E ainda que elas são coisa do capeta. Ele tem razão em tudo ao mesmo tempo. Um dia você entenderá.

“Talvez um dia você venha a gostar de meninos. Não sei bem o que lhe dizer quanto a isso, mas vá lá. Se você gostar, as coisas tendem a ser muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais complicadas. Se te disserem “o que seu pai pensaria disso?”, responda que por mim tudo bem. Gostar de meninos não tem nada de errado, mande os outros cuidarem das suas vidas e que se danem. São só imbecis.

“Ninguém pode lhe ensinar certas coisas, mesmo que com boas intenções. Viva do seu próprio jeito.

“Use a música e os filmes para entrar no seu próprio mundo. As coisas que você inventa não são menos verdadeiras do que as coisas que os outros chamam de realidade. Ouça Doors, Zeppelin, Pink Floyd, e Janis. Mas não esqueça dos nossos. Legião, Novos Baianos, Chico e Caetano.

“Leia muita poesia. Tem dois armários cheios de livros no meu apartamento. São a sua herança. Não se desfaça deles. Um dia, quando você menos esperar, um dos livros lhe fará sentido. Espere até o momento certo de ler um livro, não o faça nem antes, nem depois. Leia Neruda, Brecht, Quintana, Oswald, e todos os outros que tiver vontade. Mas leia. Assim crescerá o seu mundo interior.

“Por último, não se zangue com o que aconteceu comigo, nem se entristeça. A morte é a maior de todas as verdades que temos de suportar. Eu vivi vinte e três anos. Vão dizer que tinha muito o que fazer, que não publiquei o livro de poesias que sempre quis, ou que não o vi crescer. Isso me dói. Mesmo assim, vivi vinte e três anos. Vivi mesmo, ao contrário de outras pessoas que passam cinqüenta verões nesse mundo ocupados demais para ver o pôr do sol, sorrir por ganhar uma flor, compartilhar um poema... Estou satisfeito com a vida que levei, com o que fiz, e principalmente cheio de orgulho por ter sido responsável pelo seu nascimento.

“Lembre-se: você é o fruto de um amor imenso, infinito, de que eu e sua mãe fomos parte ao gerá-lo. E terá meu olhar sempre em você (olhe no espelho), e os cabelos de sua mãe, e meu jeito de sentar.

“Agora preciso ir, filho. Vou descobrir se há mesmo algo por trás das cortinas dessa vida. Se houver, tenho certeza que voltaremos a nos encontrar.

“Sempre lembre que eu te amo. Do teu pai, Rodrigo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Os Três Sábios de Raja

"Agora escutem seus tolos! - Zarel falou com sua voz mais retumbante, as chamas dos archotes subitamente reduziram-se. - Venho de muito longe para lhes dar um aviso, e vou dá-lo!"

(capítulos de um a catorze)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Sereno da madrugada

Para Eraldo e Deise Duarte.


Preta,

Parece que foi ontem, mas já faz cinqüenta anos desde que estivemos juntos naquelas tardes, à cerca do teu jardim.

Lembro que ficava nervoso toda vez que te via, como se tivesse um gato fazendo folia dentro do peito, a tua mãe sempre por perto (a velha não gostava nada de mim). Agora, reparando as coisas daqui, debaixo de uma geada de cabelos brancos, percebo que foi a melhor época da minha vida. Será que da tua também?

Talvez seja tarde pra, depois da vida passada, te dizer essas coisas. Seria melhor, muito melhor, ter confessado esses segredos encarando teu olhar imenso, sentindo teu cheiro de pano de prato (aquele que só tem o da casa da gente); lembra que sonhávamos ter filhos? A vida não foi nada fácil pra nós e nossos sonhos... taí a verdade.

Hoje em dia, quando bate a saudade dessas coisas empoeiradas, me agarro no braço do violão pra agüentar o tranco. Lembra dele, naquela época? Estava sempre com as cordas gastas, o braço meio torto não dava a afinação perfeita que eu queria pra te impressionar, só que o som saía gordo como eu gostava de dentro da grande caixa acústica. Acho que tu gostava também. Teus olhos seguiam meus dedos calejados nos acordes, de vez em quando tu se embaçava de lágrimas, ficava com vergonha e dizia que era um cisco. Eu era o homem mais feliz do mundo. Deitado sozinho, horas depois, lembrava o morno da tua mão na minha, por um segundinho, que era o que dava tempo antes da tua mãe nos descobrir.

Teve aquele dia que te fiz uma serenata... Ta tudo vivinho na memória, nunca vou esquecer. Eu tava no boteco com o Beto, bebemos uns tragos (eu pra tomar coragem). Não contei pra ninguém do que ia fazer, senão ia uma tropa atrás de mim. Falei que ia embora, enveredei na tua rua um pouco depois, o gato miando no peito como sempre. Da rua (não tive coragem de entrar no pátio, tua mãe era fogo!), olhei a tua janela, dei uma última afinada no violão e comecei:

"Vem chegando a madrugada,
O sereno vem caindo,
Cai, cai, sereno devagar,
Meu amor está dormindo.

Deixa dormir em paz,
Que uma noite não é nada,
Não acorde meu amor,
Sereno, da madrugada"

Tu apareceu toda amassada na janela, estava tão linda... o cabelo com um lenço por cima, os olhos surpresos. A velha ficou fula, eu não conseguia ouvir o que ela te dizia, mas na certa era pra me tocar um balde de água. Talvez ela tivesse mesmo feito isso, só que daí os vizinhos apareceram. Acho que todo mundo gostou da minha cantoria, afinal.


Uma vez tu apareceu com aquela história de tu ser freira, lembra? Eu ficava todo nervoso. Tá, tu vai dizer que não era nervoso, que ficava brabo mesmo. Mas queria o que com aqueles disparates? Coisa desmiolada assistir uma missa e querer ser freira! Ainda bem que tua mãe foi contra, lembra do que ela falou? “Onde já se viu freira preta?!”. No fim das contas ela acabou me ajudando com isso. É, o mundo gira, tudo pode trocar de lugar, a gente às vezes recebe a mão de quem menos espera.

Lembro dessas e de outras tantas coisas que nunca te contei do jeito que está escrito aqui. É que não conseguia! Sei que já se vão cinqüenta anos, que agora temos os quatro filhos criados, que a tua mãe, no final das contas, acabou me aceitando; temos nossa casa, uma neta pra mimar, sei que a vida navega tranqüila pros finalmentes. Só queria escrever, minha preta, as coisas que era difícil dizer com o gato foliando no peito, e com o nó na garganta que atrapalha tudo que tento falar.

A única coisa que diminui minha culpa é saber que tu, nessas espertezas de mulher-menina, sempre soube isso pelos meus olhos...

...e agora com palavras também.

Te amo, como sempre.