Para Eraldo e Deise Duarte.
Preta,
Parece que foi ontem, mas já faz cinqüenta anos desde que estivemos juntos naquelas tardes, à cerca do teu jardim.
Lembro que ficava nervoso toda vez que te via, como se tivesse um gato fazendo folia dentro do peito, a tua mãe sempre por perto (a velha não gostava nada de mim). Agora, reparando as coisas daqui, debaixo de uma geada de cabelos brancos, percebo que foi a melhor época da minha vida. Será que da tua também?
Talvez seja tarde pra, depois da vida passada, te dizer essas coisas. Seria melhor, muito melhor, ter confessado esses segredos encarando teu olhar imenso, sentindo teu cheiro de pano de prato (aquele que só tem o da casa da gente); lembra que sonhávamos ter filhos? A vida não foi nada fácil pra nós e nossos sonhos... taí a verdade.
Hoje em dia, quando bate a saudade dessas coisas empoeiradas, me agarro no braço do violão pra agüentar o tranco. Lembra dele, naquela época? Estava sempre com as cordas gastas, o braço meio torto não dava a afinação perfeita que eu queria pra te impressionar, só que o som saía gordo como eu gostava de dentro da grande caixa acústica. Acho que tu gostava também. Teus olhos seguiam meus dedos calejados nos acordes, de vez em quando tu se embaçava de lágrimas, ficava com vergonha e dizia que era um cisco. Eu era o homem mais feliz do mundo. Deitado sozinho, horas depois, lembrava o morno da tua mão na minha, por um segundinho, que era o que dava tempo antes da tua mãe nos descobrir.
Teve aquele dia que te fiz uma serenata... Ta tudo vivinho na memória, nunca vou esquecer. Eu tava no boteco com o Beto, bebemos uns tragos (eu pra tomar coragem). Não contei pra ninguém do que ia fazer, senão ia uma tropa atrás de mim. Falei que ia embora, enveredei na tua rua um pouco depois, o gato miando no peito como sempre. Da rua (não tive coragem de entrar no pátio, tua mãe era fogo!), olhei a tua janela, dei uma última afinada no violão e comecei:
"Vem chegando a madrugada,
O sereno vem caindo,
Cai, cai, sereno devagar,
Meu amor está dormindo.
Deixa dormir em paz,
Que uma noite não é nada,
Não acorde meu amor,
Sereno, da madrugada"
Tu apareceu toda amassada na janela, estava tão linda... o cabelo com um lenço por cima, os olhos surpresos. A velha ficou fula, eu não conseguia ouvir o que ela te dizia, mas na certa era pra me tocar um balde de água. Talvez ela tivesse mesmo feito isso, só que daí os vizinhos apareceram. Acho que todo mundo gostou da minha cantoria, afinal.
Uma vez tu apareceu com aquela história de tu ser freira, lembra? Eu ficava todo nervoso. Tá, tu vai dizer que não era nervoso, que ficava brabo mesmo. Mas queria o que com aqueles disparates? Coisa desmiolada assistir uma missa e querer ser freira! Ainda bem que tua mãe foi contra, lembra do que ela falou? “Onde já se viu freira preta?!”. No fim das contas ela acabou me ajudando com isso. É, o mundo gira, tudo pode trocar de lugar, a gente às vezes recebe a mão de quem menos espera.
Lembro dessas e de outras tantas coisas que nunca te contei do jeito que está escrito aqui. É que não conseguia! Sei que já se vão cinqüenta anos, que agora temos os quatro filhos criados, que a tua mãe, no final das contas, acabou me aceitando; temos nossa casa, uma neta pra mimar, sei que a vida navega tranqüila pros finalmentes. Só queria escrever, minha preta, as coisas que era difícil dizer com o gato foliando no peito, e com o nó na garganta que atrapalha tudo que tento falar.
A única coisa que diminui minha culpa é saber que tu, nessas espertezas de mulher-menina, sempre soube isso pelos meus olhos...
...e agora com palavras também.
Te amo, como sempre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário