terça-feira, 6 de março de 2012

Cão dos diabos - final

Para Mônica Menguer.

Tomás respira forte. Imerso em uma escuridão quase completa, usa os cinco sentidos para distinguir a mulher que enlaça pela cintura, e que faz movimentos suaves para cima e para baixo em seu colo. Meio sentado, beija as proximidades dos mamilos rosados de Fernanda, arrancando-lhe suspiros embevecidos de ternura.

Logo depois aconteceu o mesmo de sempre. Acordou molhado de suor, sozinho, no apartamento da Cidade Baixa em Porto Alegre. Já faz um ano desde o episódio em que conhecera Fernanda no Pub Abbey Road, em Novo Hamburgo; mas isso não evitou que sonhasse com ela praticamente todas as noites desde então.

Havia achado que era imune aos encantos de Fernanda. Troçou com os amigos do acontecido na sala de serviço do bar, quando fingiu estar bêbado para enganá-la. Achou graça por um tempo, lembrando como a tinha humilhado. Contudo, o passar do tempo revelou uma estranha sensação que foi se alastrando por seu espírito. Uma... saudade? Não, que bobagem! Não poderia ser saudade.

Acontece que o sentimento, fosse o que fosse, cresceu até se adonar de boa parte dos espaços outrora vazios em seu coração. Até mesmo os que antes nem imaginava existir, coisa nova e um tanto assustadora. Agora lá estava Fernanda, por mais que tentasse negar, essa era e verdade.

Possuíra várias mulheres depois dela. No início havia aquela raiva, uma energia quente que lhe dizia para ser cruel e castigar cada fêmea que encontrasse. Depois, aos poucos, foi passando. Por fim, a raiva se tornou simples egoísmo – o que era um avanço, pois desde então já não pretendia machucar ninguém, apenas cuidar de si.

Só que machucava. Foi assim com Ana, a morena alta de cabelos cacheados. Ficaram juntos três meses, até que um dia ela fez a bobagem de confessar que estava apaixonada.

– E então? – ela quis saber. – O que faremos agora?

Eram sete da manhã de um domingo nublado. Tomás saiu do edredom e começou a se vestir calmamente.

– Vou indo – disse ele.

Ela abriu um pouco a boca, espantada, emoldurou o rosto nas mãos; os olhos se encheram de lágrimas.

– Olha, Ana – Tomás sentou na cama, já vestido –, as coisas não podem ser assim como tu está pensando. Sou o pior cara para alguém se apaixonar, e talvez, justamente por isso, essa merda tenha me acontecido tanto.

Passou a mão nos cabelos dela, pensando que esta seria a última vez. Ana colou o rosto em seu peito, parecia uma gatinha assustada. Cravou as unhas nas costas dele, que arderam mesmo por baixo da camisa. Ela o mordia com raiva, de vez em quando aplicando socos débeis no peito onde adormecera tantas noites. Tomás sentiu um calor riscar a pele e retribuiu o beijo que ela lhe impunha. Ana arranhava o rosto contra a barba castanha de Tomás. Ele rapidamente tirou as roupas (ela estava nua, assim como havia dormido), encostou o pau quente no meio das coxas dela, o cabeção pousado gentilmente sobre a boceta. De pernas realmente muito abertas, Ana lançava uivos lancinantes no ar, naquele instante tudo que desejava era ser amada ainda mais uma vez. Tomás segurou as longas pernas dela com força antes de empurrar o pau vagarosamente para dentro; estava muito quente lá. Depois comeu-a com força, como ela gostava.

No momento do gozo, Ana desrepresou uma torrente de lágrimas, logo ambos estavam misturados em uma poderosa infusão de suor, cabelos, sêmem e choro. Foi lindo, Tomás pensou. Partiu logo, sem remorsos, não havia mais nada a fazer ali, o único jeito era dar o fora.

Depois de Ana passou uma época meio perdido. Sentia que estava na vida só perambulando, pulava de galho em galho, boca em boca, coxa em coxa, seios em seios; a falta de qualquer objetivo lhe fazia mal. Leu Castañeda e tentou as drogas, Hemingway lhe dizia que no fim, tudo era solidão; Kundera o ensinou sobre a relatividade das coisas da vida e Nabokov, o valor de uma paixão genuína. Contudo, foi Vargas Llosa quem mais soube lhe falar, ou melhor, a chilenita do romance Travessuras da menina má.

Em todo caso, as mulheres se sucediam como em uma fila indiana interminável. Um dia, quando estava com Rita, uma delícia de baixinha cheirosa, lembrou Bukowski.

Outra cama, outra mulher... mais cortinas, outro banheiro, outra cozinha... outros olhos, outro cabelo, outros pés e dedos.

– O que é isso, Tom? – era dessas que gostava de dar apelidos.

Tomás deu de ombros.

– Nada, deixa para lá.

Estavam na praia há dois dias. Passaram um tempo com os amigos dela, depois foram ver o mar. Rita gostava de flores, sempre colhia algumas na parte mais rala das dunas. Levava-as para a pousada, ligava o rádio e passava a tarde inteira sonhando coisas que faziam Tomás sufocar. Adorava os Beatles, estava sempre ouvindo os discos deles. Nos últimos tempos, ao menos uma vez por dia quando estavam juntos, colocava All We Need Is Love.

Tomás gostava de fazer amor com Rita. Tinha um jeito suave e carícias intermináveis, se deixava conduzir sem pressa, ou mais rápido quando ele assim desejava. Pensou que parecia uma gueixa, e odiou isso, embora também gostasse da doçura que ela tinha. Rita precisava ser abraçada enquanto transavam, Tomás de vez em quando atendia e a tratava com carinho.

Agora estava só de novo. A manhã de sábado começara bem, acordou cedo devido aos sonhos com Fernanda. Leu o jornal (pulou as páginas policiais), comeu duas torradas com queijo, tomou uma xícara de café preto. Saiu de casa em direção à Redenção levando a gaita de boca.

Pouco importava para os cães soltos na grama que o dia estivesse quente como um forno, mesmo debaixo das árvores ou próximo ao lago dos pedalinhos. Tomás deitou de costas na grama, à sombra de um pequeno ipê, ficou olhando o céu. Sentia-se bem. Levou a gaita aos lábios e deixou as notas fluírem desordenadamente do mesmo jeito que lhe chegavam à imaginação.

– Olha… isso parece Johnny Hartman – murmurou.

Tocou até matar o desejo de blues.

Fazia tanto calor que acabou dormindo sob o ipê. Sonhou que estava deitado na relva e alguém vinha fazer com que levantasse. Os olhos de Tomás percorreram a mão que o puxava, passando pelo braço até chegar ao rosto pintado de branco. Era um palhaço com ar misterioso, vestia camisa listrada, calça com suspensórios e chapéu coco.

– Olá – Tomás arriscou uma saudação.

O palhaço cruzou os braços, balançou a cabeça e ficou batendo o pé direito no chão, dando um tipo de sermão mudo em Tomás. De fato, este se sentiu envergonhado quando recebeu vários tapinhas na roupa que retiraram um pouco de poeira ali acumulada. De alguma forma entendia a repreensão do palhaço. Era vergonhoso ficar vagando enquanto tantos caminhos se abriam caso quisesse percorrê-los.

– Mas o que você quer que eu faça?! – Tomás perguntou, a cara aflita de quem admite culpa.

O palhaço deu um safanão (teatral, mas forte) em sua nuca. Pegando-o pela mão, levou-o até um banquinho de madeira em frente a uma mesinha ali perto. Começou a chover grosso em cima de Tomás, que não ousou sair do banco, mas olhou para cima. O céu nublado derrubava gotas geladas em seus ombros.

Sentado atrás da mesinha, o palhaço datilografava incessantemente em uma velha máquina de escrever Olivetti.

Tec-tec-tec...

De quando em quando olhava para Tomás, e aí batia ainda mais forte.

Tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec...

A chuva castigava Tomás sem dó, que sentia frio, e um arrepio estranho emanando direto da alma.

Tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec...

Começou a tremer muito, cruzou os braços para agüentar o aguaceiro; o palhaço, por sua vez, suava de tanto labutar na máquina encharcada.

Tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec...

Então Tomás explodiu.

– Que grande merda você está fazendo aí? – gritou.

O palhaço pareceu positivamente surpreso. Suspirou, passou as costas da mão na testa suada, e, retirando a folha da máquina, levou-a até Tomás. Estava se rasgando de tão molhada, mas era possível entender o que ia ali.

Todo esse tempo, e lá estavam apenas duas palavras. Só duas. Tomás pressentiu que eram a resposta para sua pergunta sobre o que fazer. Cada letra tinha sido datilografada repetidamente em cima de uma anterior, como se fosse para improvisar um negrito.

Lia-se:

Sonhe,

burro.

Então o palhaço, abrindo os braços (como se dissesse “tcharaam”), finalmente riu. E foi o sorriso mais luminoso que Tomás jamais viu.


De todas as tentativas para encontrar Fernanda, a que mais chegou perto de funcionar foi contatar Sibeli. Mesmo sendo de natureza cautelosa, ela nutria um tipo de encantamento por Tomás desde que haviam se conhecido há um ano. Algumas vezes chegou bem perto de lhe passar o telefone da amiga - Tomás ficava quase louco de alegria, só que então, tomada por um impulso de razão, Sibeli resolvia que era melhor evitar aquilo.

Nunca contou a Fernanda que ele queria revê-la. Achava que ela já era instável o suficiente longe das atitudes imprevisíveis de Tomás; caso se encontrassem, que fosse por conta própria, ela seria a última pessoa a compactuar com aquela irresponsabilidade. E também, Fernanda havia mudado tanto no último ano... De qualquer maneira, foi Sibeli quem deixou escapar que Fernanda agora morava em Porto Alegre. Tomás queria o endereço, Sibeli desconversava.

Para aumentar as chances de revê-la, passou a sair de quinta à domingo pelos lugares mais freqüentados da Cidade Baixa e arredores. Achava que seria impossível não se esbarrarem se fosse beber com certa freqüência no Hélio, dançar no Mr. Dam, jogar conversa-fora em frente ao Bambus. Quando a grana apertava e não podia fazer essas coisas, vagava pelas ruas parando de vez em quando para mijar em algum poste.

Passaram-se semanas sem que nada importante alterasse as intenções de Tomás. Havia se tornado um amante da solidão, isso, decerto, pensava ele, vinha da quantidade enorme de tempo gasto bebendo, trepando ou armando esquemas para trepar. Se divertia com algumas mulheres, com outras até tentava manter o contato depois de terminado o tesão inicial.

Quando se permitia estar só era um alívio, ficava a maior parte das horas olhando para dentro; isso o lembrava dos ensinamentos de Dom Juan ao jovem Castañeda, que aprendeu ser o medo o primeiro inimigo de um homem para atingir o conhecimento. Se vencesse, estaria entregue à uma radiante clareza de espírito, e jamais perderia tal dom. Só que a partir daí teria de enfrentar a própria conquista.

– “E ele é corajoso, porque é claro; e não para diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder, terá sucumbido a seu segundo inimigo e acaba impedido de se tornar um homem de conhecimento. Em vez disso, pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço” – Tomás leu em voz alta. – Um palhaço...

Enfiou o livro no bolso de trás da calça, andou por duas quadras, enveredou na Olavo Bilac, distraído. Era noite de quinta, queria encontrar algo para passar o tempo.

Foi então que a viu.

Reconheceria aquela bundinha arrebitada em qualquer lugar. Sonhara com ela o suficiente para poder desenhá-la num quadro impressionista, caso fosse capaz de desenhar. E agora, ironia da vida, foi a única coisa que enxergou sumindo de repente debaixo do número 336. Tinha de ser ela! Ou melhor, era ela. Colocava toda sua fé nesta esperança.

Deixou-se revistar pelo brutamonte da porta e ganhou o interior do recinto. Sentou-se em um sofá azul escorando os cotovelos na mesa. Nervoso, pediu logo um trago. Lhe trouxeram uma vodka. Chegou uma moça para sentar ao lado dele, toda carícias. Tomás não a observou direito, só percebeu com o canto do olho que era loira, siliconada e inquieta. Começou a tomar com ela o drink e os quatro energéticos pelos quais lhe seriam cobrados duzentos reais. Ela disse se chamar Bianca (obviamente uma fábula), falava pelos cotovelos, parecia não se importar com o silêncio do cliente.

– Ai, bonitinho, tu é tímido, né?! – disse ela. – Não precisa ficar encabulado, já estou acostumada a cuidar de clientes caladinhos. Quando cheguei aqui (por falar nisso, nem parece que já faz meio ano!), nem sabia direito como agradar um homem, tinha tido só um namoradinho em Santa Maria, daí vim para Porto Alegre estudar Psico. Nossa! Sempre quis ser psicóloga. Tipo, meu dom natural, sabe? Só que fiquei sem dinheiro... Foi muita sorte conhecer a Dora nessa época. Tava no Tapas, meio tristinha, ela chegou com aquele olhar duro, como se estivesse irritada com a minha fraqueza.

Tomás lembrou o olhar do palhaço.

– Olha – Bianca apontava um palquinho daqueles com barra de ferro para performances sensuais –, lá está ela!

As luzes do puteiro diminuíram até se tornarem uma penumbra agradável. Os primeiros acordes de American Woman, na versão do Guess Who, eletrizaram o mundo inteiro – ou pelo menos foi isso que Tomás achou. Junto com o início da música, Fernanda apareceu, aos poucos, iluminada por canhões vermelhos, azuis e brancos que piscavam e se movimentavam freneticamente revelando, um de cada vez, pequenas partes de seu corpo.

– É ela! – Tomás disse, com indisfarçável cara de bobo, olhos arregalados.

– Foi o que eu disse – concordou Bianca, mas com uma expressão de quem desconfia de algo no tamanho da surpresa dele. – Essa é a Dora de quem eu falava.

American woman, gonna mess your mind!

Fernanda tinha os cabelos perfeitamente presos e bem cuidados. Sobre os ombros, um casaquinho de couro com zíper aberto a vestia no tênue limite entre esconder e insinuar a beleza dos seios. De umbigo à mostra, dançava tesa dentro de um shortinho jeans preto com alguns rasgos, bem ao estilo motoqueira dos anos 1990. Pulseiras com spikes cromados denunciavam tendências violentas, e um par de All Star cano médio dava o ponto final em uma figura que Tomás só poderia comparar à realização de todos os seus sonhos carnais.

– Say A – Fernanda cantava junto com a música, olhando para todos e ninguém ao mesmo tempo.

– A! – respondia o puteiro, Tomás ainda mais alto que os outros clientes.

– Say M – continuava ela.

– M!

– Say E.

– E!

– Say R.

– R.

– Say I.

– I!

– Say C.

– C!

– Say A.

– A!

– Say N.

– N!

Ela hipnotizava o recinto com maestria. Estavam em suas mãos, qualquer homem ou mulher ali faria o que ela mandasse; mesmo suas colegas de profissão, coisa que já havia acontecido várias vezes. Ninguém estava fora de seu alcance.

Coloured lights can hypnotize.

Desceu do palco seguida pelo colorido das luzes dos canhões. Andava com autoridade por entre as mesas dos clientes, Tomás a observava enervado, nem ao menos se dava conta que existia, o mundo inteiro era Fernanda naquele momento.

Sparkle someone else's eyes.

Dançava, flanava, voava, Tomás não conseguia decidir. Fernanda às vezes acariciava de leve a face de algum sortudo ao passar. Veio caminhando na direção de Tomás, ainda sem se aperceber dele.

I don't need your war machines… I don't need your ghetto scenes.

Havia se passado um ano desde a primeira e única vez em que se viram, mas a intensidade entre os dois não havia diminuído. Assim que os olhares se cruzaram, Tomás estremeceu. Fernanda fechou a expressão com maldade. Simples, pura e inequívoca maldade.

Em seus olhos, Tomás percebeu o ódio que ele mesmo já ostentara uma vez, e que o tornara um filho-da-puta de primeira. Sentiu medo, pois conhecia a sensação que deveria estar consumindo o espírito de Fernanda naquele instante. Por um momento pensou nas maldades que havia feito sob o efeito daquela mesma loucura, teve pena das mulheres que maltratou, Fernanda uma delas.

Agora ele era o rato, ela o gato. Ele queria amá-la. Ela, destruí-lo.

Now woman, get away from me.

A música se encaminhava para o final. Tomás viu Fernanda chegar, mandar Bianca embora, e sentar-se no seu colo do mesmíssimo jeito que fizera um ano atrás. Só o olhar era inteiramente outro.

Não disseram nada, não verbalmente, pelo menos. Tomás desprendeu os cabelos dela, acariciando-os apaixonadamente, sequer fingia estar no seu juízo perfeito. Fernanda sentia o pau dele pressionando sua boceta, fazia movimentos curtos chocando-o contra si.

A música entrou no último solo de guitarra, e foi este o momento que ela escolheu para beijá-lo. A barba de Tomás roçou seu pescoço alvo, ela contra-atacou passando a mão por cima da calça onde vivia o volume de um pau louco para comê-la. Fez com que cada célula do corpo dele estivesse sob seu comando, e então, sem mais nem menos, a música acabou. Fernanda levantou-se, terminou de beber o trago de Tomás e foi até a mesa de dois homens ali perto.

Tomás ficou idiotizado, como se estivesse bêbado, louco do ácido, chá de cogumelos, mareado de maconha, ou tudo junto.

Voltou a si quando pôde processar o que seus olhos lhe mostravam: Fernanda entre dois homens, um cara baixo entroncado, e outro bronzeado de pescoço com gogó saliente. Desde que sua ex-mulher o trocara pelo Play Boy (isso já fazia um ano), nunca mais havia sentido ciúmes, de modo que não reconheceu de pronto o que era aquilo que fazia seu peito esquentar, ou porque seus braços tremiam num impulso de força. As coisas só ficaram claras depois que sentiu as faces queimando e a clara necessidade de tocar fogo no bordel com todos dentro.

O cérebro a mil e quatrocentas rotações por minuto se esforçava para encontrar uma saída racional: como fazer ela voltar? E os dois idiotas, precisavam de uma lição.

Na falta de qualquer solução, levantou-se e ficou de pé na frente dos três. Ninguém se deu conta dele, estavam enredados em um oceano de mãos, pernas e bocas; seios, coxas e cabelos; pescoços, nucas e paus.

– Sua puta suja – Tomás anunciou-se.

– Ei, cara – disse o do gogó, sem deixar de beijá-la –, dê o fora, ela está ocupada.

Como num flash, Tomás viu sua imaginação desenhar a cena dele arrancando a cabeça do desgraçado com um soco incrível. Contudo, olhou a quantidade de seguranças que já o observavam e se segurou.

– Amigos – continuou Tomás –, essa cadela me passou chato, só achei que vocês deveriam saber que ela não é limpa. Já estou indo.

Antes de dar as costas e voltar para sua mesa, vislumbrou o olhar de ódio indizível que Fernanda lhe lançava, o mesmo que recebeu ao colocar uma nota de dois reais no decote dela um ano atrás. Riu, contente, ainda sabia ser canastrão.

Pediu outro trago, trouxeram-lhe uma dose dupla de absinto. Sentado (Bianca voltara a beber com ele), viu os dois rapazes perderem o vigor de antes, a dúvida, pensou Tomás, estava surtindo efeito, como sempre. Se desculparam, logo depois, e foram até cinco putas ociosas perto do bar.

Tomás queimava de rancor, amor, ódio, paixão, ciúmes, alegria, raiva – seu combustível era o álcool. Ouvia o falatório de Bianca e deixava a bebida entrar, quando acabava, pedia mais, sempre mais. Se escorava nisso para suportar a visão de Fernanda com os seios chupados por um velho careca num blazer escuro. Se passaram alguns minutos (ou horas?), até decidirem subir.

– Tu está apaixonado por ela – Bianca voltou a ser ouvida.

Tomás virou-se para olhá-la, muito surpreso.

– É, acho que estou – assustou-se mais ainda com a própria confissão.

– É engraçado isso, queria saber como é, nunca me aconteceu, sabe, de verdade mesmo.

– Que idade tu tem? – Tomás perguntou, subitamente interessado na delicadeza insuspeita de Bianca.

– Dezenove...

– Fica descansada, vai acontecer. Mas tome cuidado, não é nada fácil.

Ela bebia distraída, tinha ainda um bom tanto do olhar de menina que se surpreende com o mundo. Tomás então notou como era linda em todos os sentidos. Teria gostado de trepar com ela se não fosse inteiramente de Fernanda naquele momento.

– Acho que procuro algo que não encontrei em ninguém – disse ela.

Tomás não agüentou ouvir uma frase tão pura. Pulou sobre Bianca, segurou seus cabelos na base da nuca e a beijou. Um beijo quente, longo, profundo, ardente, violento e apaixonado com todos os ingredientes borbulhantes do fundo da alma – e sabor absinto.

Arfante, Bianca pareceu tocada pela química explosiva que a contaminou no beijo.

– Nunca – ela disse – haviam me beijado desse jeito.

Sem precisar dizer nada, levantaram e caminharam em direção à pequena pista de dança.

– Pensando bem, desde que comecei a trabalhar aqui não tinham mais me beijado de jeito nenhum – disse ao passar os braços em torno do pescoço dele.

Como dois namoradinhos apaixonados, se embalaram aconchegados um ao outro. Não viram quando Fernanda desceu as escadas e deu com eles. Ela lembrou de quando Tomás seduziu Sibeli, um ano atrás. Que falta de criatividade, o mesmo truque de novo.

Mas olhou direito para eles. Era como se não estivessem ali, dançavam fora de ritmo, de olhos fechados, Tomás respirava o pescoço de Bianca e ela meio que se acalentava junto ao peito dele. A cena estava sincera demais para ser fingimento.

Foi a vez de Fernanda ser tomada por uma explosão interna: inveja, saudade e cólera; amor, ansiedade e tesão; loucura, poema e dor. Passou por sua cabeça a imagem do universo explodindo em chamas.

Quando se deu por conta, havia se intrometido entre os dois, beijava sem saber a quem; embora a barba denunciasse a boca de Tomás, e o perfume doce o pescoço de Bianca. Pouco conseguiam distinguir a direção de onde vinham mãos que apertavam, unhas que arranhavam, dentes que mordiam e lambidas que acendiam.

– Com vocês – Tomás disse, ensopado de romantismo – quero trepar ouvindo Led, conversar com Blues ondulando no ar, e acordar ao som de Novos Baianos...

– Abre a porta e a janela... e vem ver o sol nascer! – Bianca riu, alegre como nunca.

Fernanda, que não conhecia essa música e não gostava de cafonices, voltou ao seu juízo perfeito, e abandonando a loucura dos últimos instantes, sentiu raiva de novo, e ciúmes.

– Seu imbecil! – xingou ela, com raiva por ter se deixado levar. – Vamos Bianca, temos que trabalhar.

Puxou a colega até a mesa em que bebiam os dois caras, o do gogó e o entroncado. Estavam tão alcoolizados, Tomás percebeu, que decerto nem lembravam seus nomes, quanto mais a ameaça de chato. Fernanda dominava Bianca, ambas deixando as mãos dos caras as descobrirem.

Tomás lembrou Bukowski: “Nunca traga uma puta com você... eu me apaixonarei por ela”.

Não foi imediatamente atrás das suas mulheres (sentia que eram suas, independente do que pudesse acontecer). No bar, pediu outra dose dupla de absinto.

– Hemingway praticava boxe. Seria ótimo ser um pouco como ele numa hora dessas – murmurou bebendo a última metade de absinto num gole só, já estava enosando as pernas.

Chegou trôpego à mesa dos dois caras.

– Como estão rapazes – Tomás cutucou-os indicando as moças com um gesto –, bem servidos?

Antes de ouvir qualquer resposta imbecil, despejou um soco com toda força que pôde bem na cara do coitado do gogó. A cabeça dele não saltou fora do pescoço como desejava, ainda assim, a sensação de vê-lo abraçar o chão foi ótima. O amigo dele, o entroncado, levantou de súbito, rápido o bastante para aparar o soco que lhe fora destinado. Avançou firme sobre Tomás, aplicando golpes firmes em seu tronco. Tomás provavelmente teria apanhado dele, contudo, quando se ergueu, o entroncado derrubou Bianca e Fernanda, isso deixou Tomás violento como um louco. Passou então a chutar, socar e cuspir, com os cotovelos, joelhos, dedos, tronco; de repente, a coisa que mais queria no mundo era aniquilar qualquer célula do entroncado. Neste momento, o primeiro chute de Tomás passou-lhe a guarda atingindo o peito. O cara se encurvou, perdendo ar dos pulmões. Urrando de alegria, Tomás caiu sobre ele com uma chuvarada de porradas desconexas, até deixá-lo amontoado por cima do amigo, ambos estirados no chão.

Isso aconteceu numa fração de segundos, Tomás havia espancado dois homens sozinho, e sentia-se glorioso como o sol. Mal notou, em sua grandeza, os vários seguranças chegando. Apenas sentiu as generosas pancadas lhe arrocharem músculos e pele. Alguns ossos pareciam quebrar-se, mas não saberia dizer ao certo devido aos devaneios da dor, estava muito tonto.

Depois do que lhe pareceram horas... jogaram seu corpo inerte do outro lado da rua. Caiu como um saco de bosta, e como estava ficou. Era quase dia claro, faltava pouco para o sol nascer. Com muito custo, acomodou o pescoço sobre o meio fio.

A vida é boa, pensou. Ainda é possível viver algumas aventuras antes de a hora chegar. Somos alguns bilhões de idiotas passando um tempo neste mundo, e o que podemos fazer além de sonhar? Bem, sonhar é um começo. É preciso tentar concretizar o que se quer, mas isso tu não me disse palhaço, tive de descobrir sozinho.

As copas verdes das árvores vistas daquele ângulo eram quase um presente. Como se fosse um raio atingindo sua mente, Tomás entendeu algo sobre a vida enquanto as observava: “Os homens se distinguem por aquilo que faz seus corações baterem”.

Um rosto meigo, com tinta de maquiagem escorrendo pelas bochechas em lágrimas torrenciais, apareceu diante dele. Era Bianca, terna demais para ser verdade.Tentou erguê-lo, mas ele a convenceu a desistir dizendo que ficaria bem, contanto que o deixassem descansar um pouco. Bianca deitou-se também, pousando a cabeça gentilmente em seu peito.

Fernanda chegou, não chorava, jamais se permitiria tal fraqueza. Os olhos dela encontraram os dele, sentiram-se felizes, os três.

– E agora, o que faremos? – Fernanda perguntou.

Tomás relembrou o conselho do palhaço, mas ao invés de repeti-lo, disse apenas:

– Vamos dormir na sarjeta.


*Leia a primeira parte de Cão dos diabos

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